Insira sua pesquisa e pressione ENTER

Vidas ou vidas? A falsa dicotomia – por Felipe Camozzato

Muito se tem falado que “primeiro é necessário cuidar da vida e, em um segundo momento, da economia”. Entretanto, isso demonstra uma falha na percepção do que é, efetivamente, a atividade econômica e o seu papel na vida das pessoas. Sem atividade econômica a qualidade de vida tende a cair vertiginosamente e, por consequência, esse debate não pode ser realizado de maneira compartimentada e polarizada – os “pró-economia” contra “pró-vida”.

Após um longo período de interrupção da atividade econômica, as cadeias de fornecimento de bens e serviços demorarão para serem reestabelecidas, e, durante esse período, lutaremos contra uma nova doença, invisível a olho nu e com alta taxa de letalidade – a miséria.

Conforme demostra o estudo longitudinal de 20 anos, publicado na prestigiada revista médica Lancet, houve um incremento de 260 mil mortes por câncer após a recessão de 2008-2010 nos países membros OCDE, que, em tese, seriam os mais ricos.

Ainda, para aqueles que se adotam a falácia de que essas conclusões nada têm para ensinar ao Brasil, a FIOCRUZ, em parceria com uma série de universidades renomadas, incluindo a própria Imperial College, que recomendou as medidas de isolamento, fez um estudo análogo para o caso brasileiro. Concluiu-se que, no Brasil, em virtude do incremento do desemprego entre os anos de 2012 e 2017, houve também um incremento de 31.415 mortes, com relação de causalidade, especialmente nos grupos mais economicamente vulneráveis.

Com isso não quero afirmar que devemos acabar imediatamente com o lockdown horizontal (para todos), mas que ponderemos, adaptando Shakespeare aos tempos atuais, que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã ideologia. Os dados importam e, atualmente, justamente aqueles mais prementes, relacionados ao número real de infectados e quais são as perspectivas de flexibilizações das restrições, ainda são desconhecidos.

É por isso que precisamos agir rápido não apenas no aumento de testagem, mas também no acompanhamento das equipagens de nossa estrutura de saúde. Em paralelo, precisamos de mais dados confiáveis de contágio para, junto das informações de internações, óbitos e de confirmações dos benefícios do uso de medicamentos em testagem, tenhamos as informações necessárias para a modelagem de uma política pública eficiente, que salve vidas – todas elas – e não apenas as que neutralizam o vírus.

Administrador de empresas, especialista em Finanças e pós-graduado em Liderança Competitiva Global na Georgetown University (EUA). Vereador em Porto Alegre (Partido Novo)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *