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Uma nova pandemia: doença mental – por Carla Rojas Braga

Pessoas sem histórico de doença mental estão desenvolvendo sérios problemas psicológicos pela primeira vez como resultado da pandemia e do confinamento, em meio a crescentes tensões pelo isolamento, insegurança no emprego, ruptura de relacionamentos e luto, como revelou nesta semana o Royal College of Psychiatrists, de Londres.

Adultos e crianças estão tendo episódios psicóticos, mania e depressão, sendo que alguns são levados ao hospital por causa da preocupação com seu bem-estar mental.

O estudo relata que homens entre 18 e 25 anos foram muito afetados por problemas de saúde mental pela primeira vez. Pesquisas anteriores sugeriram que eles se sentem os mais afetados pelas restrições de movimento e são mais propensos a desrespeitar o bloqueio.

Oito semanas após as medidas de lockdown , o Royal College of Psychiatrists está avisando que os serviços podem ser sobrecarregados por “um tsunami de doença mental”.

Falando sobre a realidade brasileira, aqui também muitas famílias estão passando por uma tensão significativa como resultado de ficarem em casa juntos o tempo todo.

Durante a pandemia, algumas pessoas estão apresentando sintomas de distúrbios de humor, como mania, depressão e até episódios psicóticos, desencadeados por eventos estressantes associados à pandemia e ao confinamento .

Muitas pessoas estão solicitando atendimento psicológico desencadeado por eventos significativos desse momento, como perda de emprego, luto, doença significativa em um membro da família ou preocupações com os negócios, com as empresas onde trabalham terem a possibilidade de estar prestes a falir, etc.

Muitas estão extremamente doentes, com sintomas de doença mental grave: sérias mudanças de humor, ideias delirantes e alucinações. Eventos de vida associados ao Covid-19 provocaram isso ou levaram a uma recaída em quase todas elas.

Além disso, os relacionamentos agora estão sentindo pressões do confinamento e do isolamento.

As rotinas desapareceram e os casais e famílias estão convivendo mais do que antes. Os ânimos ficam exaltados rapidamente e também aparecem sintomas de depressão, semelhantes aos de animais selvagens engaiolados, caminhando de um lado para o outro nas jaulas.

O uso indevido de álcool e drogas é um fator – pessoas que normalmente bebiam pouco ou fumavam tabaco ou um pouco de maconha, bebem e fumam mais do que o habitual, ou, ao contrário, jovens que se abasteciam da droga nas escolas ou nas festas estão apresentando sintomas de síndrome de abstinência em casa e aumentando o estresse familiar com brigas e até agressões.

Existe também o medo, e o estresse associado ao medo, de contrair a Covid-19. Estar longe da família e dos amigos e interromper a rotina normal, também estão exacerbando os problemas de saúde mental existentes.

Podemos estar diante do surgimento da “ansiedade de lockdown ” ou da “corona-psicose”. Esses pacientes geralmente estão tendo problemas para dormir, ficam ansiosos por assistir as notícias na TV e não recebem mais apoio social por meio de suas redes normais.

A ONU , inclusive, fez um alerta nesta semana de que a pandemia pode levar a um aumento no número de pessoas que precisam de cuidados de saúde mental e na gravidade de sua doença.

Trauma e transtorno de estresse pós-traumático também  estão acometendo pessoas que perderam um parente do Covid-19 ou estiveram em terapia intensiva.

Pessoas com sintomas prévios de ansiedade fóbica, obsessiva ou de depressão também podem eventualmente necessitar de atendimento psicológico por não conseguirem lidar bem com mudanças na rotina pelo confinamento e podem apresentar deterioração do estado de saúde mental , auto mutilação e ideação suicida.

Dados recentes dos hospitais gerais inclusive mostram que pacientes com câncer e doenças cardiovasculares estão deixando de buscar atendimento por medo de contrair a Covid e que correm o risco de morrerem em casa por falta de atendimento na hora certa.

Embora ainda não haja dados confiáveis ​​no Brasil, ou mesmo no mundo, sobre qualquer impacto a médio ou longo prazo da pandemia de coronavírus na saúde mental, precisamos adaptar nossos serviços de saúde para garantir que as pessoas ainda possam receber os devidos cuidados psicológicos e psiquiátricos.

Muitos de nós, psicoterapeutas, estão realizando consultas por vídeo, as quais têm se mostrado bastante eficazes e possibilitam o atendimento de pessoas que estão até em diferentes cidades, mas os serviços de saúde mental pública precisam se preparar para a avalanche de atendimentos que serão necessários após o relaxamento do isolamento social.

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