Insira sua pesquisa e pressione ENTER

Reflexões sobre Antes, Durante e Depois da Covid-19 – por Fábio Roque Sbardellotto

O momento histórico atual tem sido instigante para confrontar experiências. Se a humanidade já havia suplantado desafios como a peste negra, a 1ª e 2ª Guerras Mundiais, a gripe espanhola, a Depressão de 1929 e o acidente nuclear de Chernobyl, a contingência gerada pela Covid-19 parece ser o mais catastrófico e danoso. Já no século XXI, boa parte das relações sociais é movida por acentuada fricção, impulsionada pela dinâmica das mídias eletrônicas e dos mercados globalizados, repaginando o individualismo da Revolução Francesa para conformá-lo sob o culto à expressão pessoal a partir do consumo e exposição em redes sociais. Saímos do individualismo subjetivo para a veneração ao individualismo virtual.

Vivíamos, antes da Covid-19 (AC), uma corrida por resultados materiais, pela perpetuação do poder na política e pela busca de visibilidade pelas ferramentas de expansão telemática instantânea do pensamento. O tema do momento era a dimensão e as consequências do emprego da inteligência artificial em substituição às atividades humanas. Até a corrupção havia se tornado mais transparente, porquanto aprimorados os instrumentos de sua persecução. Via-se a formação de massas narcisistas digladiando entre si, em busca da razão unilateral. Na educação, abundavam recursos públicos em orçamentos vinculantes e quase nenhum resultado qualitativo, enquanto no ambiente privado dois modelos se apresentavam, um deles massificado, medido pelo tamanho das instituições, outro artesanal, diferenciado pela obtenção de resultados acadêmicos sólidos. A pós-modernidade do período AC era fluida, vaporosa ou efêmera, com avanços e retrocessos constantes.

Este durante Covid-19 nos remete a um ambiente de incertezas, de depressão econômica, de empobrecimento e desemprego, de fragilidade das estruturas privadas e estatais e de temor à vida das pessoas. Sofremos uma reversão de expectativas provocada pela doença. Os paradigmas para a retomada e a regeneração das sequelas são incertos, e seus efeitos serão sentidos por décadas.

Há algumas certezas para o Depois Coronavírus (DC). O aparato tecnológico a serviço do homem tem seus limites e não pode se sobrepor à importância das relações interpessoais. De que valeu a corrida tecnológica se não conseguimos vencer um vírus? É evidente que tecnologias não devem ser desprezadas, mas seu valor ainda é acessório em detrimento do ser humano. Foram tantas agressões à natureza que um ser microscópico provou sua força. A vida é real, não virtual. A economia deverá se desenvolver a partir de relações mais horizontais, sem preconceitos com o capital, mas também com mais igualdade e dignidade. As famílias poderão recobrar seu espírito fraterno, resgatando o protagonismo na educação dos filhos e os valores humanistas. Teremos de ser previdentes, valorizando os recursos privados e públicos, investindo em educação, saúde e segurança e retomando a centralidade do ser humano, a fim de não termos mais que improvisar ou sucumbir.

O futuro se faz todos os dias. Exige estabilidade, solidez e harmonia nas relações. As próximas gerações dirão se fomos capazes de sair melhor deste triste momento da humanidade.

(Fábio Roque Sbardellotto é Procurador de Justiça e presidente da FMP)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *