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Por que a quarentena não funcionou no Brasil – por Tiago Albrecht

Esta semana, conversei com um amigo dos tempos de Ensino Médio que emigrou para o Japão há vários anos.

Sobre os tempos atuais, situação lá e aqui, duas frases dele me chamaram atenção: “Aqui os japoneses obedecem as recomendações, seguem as regras” e “Diferente daqui onde a corrupção não existe; aqui não existe distinção de classe social de cor de pele somos todos iguais”.

Ambas afirmações do meu amigo imigrante na terra do sol nascente explicam, de uma maneira bastante singela porém profunda, por que o lockdown, a quarentena, o tal distanciamento social não têm funcionado em terra brasilis.

Senão, vejamos.

Em São Paulo, a capital, havia um caso muito curioso: um prefeito, em tratamento do câncer, justamente pertencente ao grupo de risco, pedia e decretava que a população ficasse em casa, protegida, sendo que ele mesmo não parava de dar coletivas e circular pelos quatro cantos da cidade. Não deu outra: contraiu o vírus e precisou se tratar. A pergunta que o paulistano médio deve ter feito foi: “Ora bolas, se o prefeito que é grupo de risco não está se cuidando, está saindo para trabalhar, por que eu que sou saudável, não sou de grupo de risco algum, tenho de ficar trancafiado em casa? Seria porque 2020 é ano eleitoral?”.

Não houve liderança pelo exemplo. Logo, não houve exemplo para que as pessoas seguissem.

Ainda em São Paulo, o governador paulista tem passado os últimos meses propalando “Ciência, Ciência, Ciência”, demonizando remédios não comprovados em pesquisas randomizadas, mas que têm trazido algum tipo de efetividade no tratamento e combate à covid-19. Porém, o que faz o médico epidemiologista que é seu chefe do comitê de crise, logo ao ser infectado? Receita a si mesmo o dito remédio sem comprovação, que poderia até mesmo fazer mal à saúde. Em que os governantes paulistas almejaram que o paulista médio acreditasse: nas palavras do governador ou no exemplo dado pelo médico infectologista chefe do comitê de crise?

Isso sem citar os inúmeros casos de pessoas que foram presas e vítimas de autoritarismo por estarem na praia se exercitando, ajudando na aula de natação da filha atleta ou simplesmente pegando um sol e ar fresco numa praça. Desde os anos de chumbo é que a liberdade individual não era tão vilipendia como em 2020.

Vários exemplos como os supracitados grassaram Brasil afora.

Governantes vociferando serem defensores da vida e pautados pela Ciência enredados em suspeitas de corrupção, tais como compra de respiradores em loja de vinhos, hospitais de campanha que jamais foram abertos mas que custaram milhões. A maioria disse que a quarentena inicial era para que pudessem colocar o sistema de saúde em dia e achatar a curva, mas que com o tempo seria possível conviver de forma segura com o vírus. Os dias passaram, as semanas vieram e os meses foram sendo cumpridos, um a um. E nada da tal ‘capacitação do sistema’ chegar. O Rio Grande do Sul, por exemplo, deverá ter 100% a mais de leitos – pasmem!  – somente cinco a seis meses após ter sido declarado estado de pandemia e calamidade pública. Na capital dos gaúchos o prefeito chegou a sacar dinheiro do Fundo Municipal da Saúde para fazer propaganda da própria gestão da pandemia nos veículos de imprensa. Porém, sabe-se que pouco gastou e poucos leitos custeou do caixa municipal. Há hospitais obsoletos, com pendengas judiciais, mas que poderiam ter sido confiscados temporariamente para abertura de leitos de UTI e tratamento da covid chinesa. Teve, mais uma vez, a iniciativa privada a ombridade e honradez de mostrar com ‘quantos paus se faz uma canoa’, isso é, erguer uma ala hospitalar para tratamento do coronavírus em tempo recorde e custeado pelo bolso de diversas empresas.

Por fim, num país onde 100 milhões de pessoas vivem em cima ou cara a cara com o próprio esgoto, a maioria sem água encanada, onde um marco de saneamento gera celeuma e grita justamente dos partidos e políticos que dizem defender os mais pobres, neste país resta a seu cidadão abandonado pelos políticos – seja pela falta de infraestrutura seja pela falta de exemplo, como vimos – escolher qual vírus vai tentar evitar: malária, dengue, zika, disenteria, covid-19… E, em meio a isso, sair pela manhã para tentar ganhar o pão para trazer ao meio-dia para casa, para quando voltar à tarde ao batente conseguir prover janta à sua família. É esse mal tratado brasileiro que agora – nojentamente – está sendo acusado de não ter contribuído ou colaborado com as quarentenas, lockdowns, não tendo feitos lives ‘gourmet’, onde mostrava o esgoto correndo na frente de sua casa ou o lamaçal em frente à sua casa devido à falta de asfaltamento? Isso tudo, claro, se o bônus do celular não tiver já acabado.

“Aqui os japoneses obedecem as recomendações, seguem as regras” e “[O Brasil é] diferente daqui onde a corrupção não existe; aqui não existe distinção de classe social, de cor de pele, somos todos iguais”. São as frases que disse meu amigo. E que foram explicadas nesse texto. Talvez o Japão possa nos ensinar mais uma lição nessa pandemia. Basta que queiramos aprendê-la.

(Tiago José Albrecht é teólogo luterano e radialista)

(Este é um artigo de opinião do colunista. Não reflete, necessariamente, a opinião do site)

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