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Paulo Freire e o terraplanismo educacional – por Luiz Marcelo Berger

Não é sequer necessário ler a obra do indigitado autor para perceber as consequências nefastas decorrentes da aplicação da sua “doutrina” no ensino brasileiro. Gerações inteiras de jovens brasileiros foram condenados ao analfabetismo funcional

Passadas algumas semanas já é possível analisar mais sobriamente e sem o furor inicial a revelação dos resultados do exame PISA para se chegar à inevitável conclusão de que a indigência do sistema de ensino brasileiro continua sem perspectiva de solução satisfatória em vista.

A manchete esteve na mídia praticamente todos os dias desde que foram divulgados. Entretanto, como previsto, mais recentemente têm recebido pouca atenção dos ilustres legisladores sediados em Brasília, como tem sido de resto a tradição nacional desde sempre, de jogar a sujeira para debaixo do tapete.

Enquanto isso, a população assiste deitada em seu berço esplêndido ao crepúsculo melancólico do saber no Brasil, ao mesmo tempo em que parlamentares se engalfinham pelos espólios de riqueza que os brasileiros produzem e que são surrupiados na calada da noite nos corredores escuros do centro do poder em Brasília.

Não existe senso de nação, apenas medidas de afogadilho, típicas de um acampamento temporário sem passado, nem futuro, tendo apenas um presente incerto onde se negocia de tudo, em prejuízo das novas gerações, vítimas inocentes do desvario moral que assola os tomadores de decisão sediados no Congresso Nacional. As consequências do desastre brasileiro no PISA ainda não alcançam a indignação merecida.

E esta talvez seja a pior de todas as notícias.

Talvez agora, em tempos de economia globalizada e negócios sendo realizados em velocidade jamais imaginada nos melhores filmes de ficção, os resultados do exame internacional provoquem maior repercussão, mais da sociedade civil do que dos parlamentares, claro, e não apenas nas tradicionais notas de rodapé dos sempre presentes especialistas de plantão que afirmam em tom fantasioso o quanto o país avançou desde a última medição. Trata-se apenas de mais um delirio ufanista desconectado da realidade.

O suposto avanço revelado foi tão pífio e irrelevante que pode ser comparado ao paciente acometido de tuberculose grave e que começou a tossir em torno de nove vezes por minuto, ao invés da costumeira média de dez tossidas por minuto.

Não. Não houve melhora alguma, pelo contrário.

Os indicadores são um sintoma do desastre que se acumula ano após ano como consequência de politicas medíocres e ineficientes, quando não deliberadamente criminosas. O Brasil está estagnado, na melhor das hipóteses, ou retrocedendo em várias áreas, ainda que se possa descontar algumas ilhas isoladas de excelência em face da enorme diversidade de cenários que pode ser encontrada em um país de dimensões continentais.

O grande problema não se encontra no resultado em si, mas nas suas causas, na dificuldade de se entender as origens mais profundas do crônico colapso educacional brasileiro, revelado toda vez que são realizadas quaisquer comparações usando critérios internacionais padronizados, ou seja, um mesmo teste aplicado em qualquer lugar do mundo, para assim se observar as melhores e piores práticas a partir de evidências concretas.

Existe uma questão de ordem cultural no país que oculta a correta apreciação do que representa o investimento em capital humano e suas consequências para o bem-estar e a prosperidade. Os brasileiros, de maneira geral, e não apenas suas elites, nunca entenderam que o esforço em pesquisa e inovação, especialmente em ciência pura e aplicada, são os motores da riqueza e prosperidade.

A distância que separa, por exemplo o Brasil de outros países que não sofrem desta cegueira intelectual está aumentando dia após dia. Não é necessário buscar comparações com países tradicionais do primeiro mundo, localizados principalmente na Europa e América do Norte para se perceber a profundidade do abismo.

Basta analisar os dados comparados com países recém-chegados, que têm realizado investimentos corretos nos últimos trinta anos e agora estão colhendo os resultados. Países como China, Singapura e Coreia, para não falar do Japão, destruído completamente na segunda guerra, tendo recebido de presente duas explosões atômicas em seu território. Décadas realizando a lição de casa, investindo inteligentemente, adotando receitas consagradas de sucesso, colocaram estes países no clube dos mais desenvolvidos do planeta.

Nem cabe aqui mencionar a Alemanha, que terminou a guerra em escombros e hoje ostenta índices que a colocam no mesmo patamar daquelas nações que oferecem elevado bem-estar à sua população. Por fim, mas talvez ainda mais interessante, agora surge no retrovisor o Vietnã, outro país consumido pela guerra que hoje retorna ao centro do teatro mundial como um dos locais mais promissores para investimento, atraindo olhares de todos aqueles que percebem as possibilidades geradas por anos de investimento naqueles setores que efetivamente podem contribuir para a prosperidade.

O assunto é de tamanha importância que mesmo nos Estados Unidos, existe acalorado e intenso debate sobre como melhorar os níveis educacionais dos americanos em face da ferrenha competição patrocinada principalmente pelos países asiáticos, capitaneados pela China.

Diga-se, apenas para lembrar, que neste mesmo ranking cujo resultado foi melancólico para o Brasil, adivinhem quem tirou a primeira posição em todos os quesitos? Claro, os chineses, que colhem agora os frutos em setores como por exemplo, tecnologia 5G, inteligência artificial, ciência dos materiais, tecnologia ferroviária e muitas outras áreas onde estão na fronteira do conhecimento.

Americanos da IBM e Google, por sua vez, já estão disponibilizando computadores quânticos que vão revolucionar tudo o que se conhece hoje em termos de processamento de informação em patamares inimagináveis.

Mas e o Brasil? Parece que a repetição incessante de erros, muitas vezes sustentados na mais abjeta ideologia, nunca sensibilizou os tomadores de decisão das altas esferas dos governos passados.

Gerações inteiras de jovens brasileiros foram condenados ao analfabetismo funcional, incapazes de desenvolver raciocínios mais complexos.

Resta evidente que o país ficou preso durante anos nos mesmos paradigmas fracassados que arrastaram milhares de estudantes para os resultados desoladores agora obtidos. Décadas de paulofreiranismo terraplanista estão cobrando agora sua pesada conta, assim como das próximas gerações, se nada for feito agora.

Quem diz isso não são os críticos de Paulo Freire, mas estudiosos isentos de partidarismos inconsequentes.

Na verdade, não é sequer necessário ler a obra do indigitado autor para perceber as consequências nefastas decorrentes da aplicação da sua “doutrina” no ensino brasileiro. Basta apenas e tão somente comparar números. Quem enterrou o paulofreiranismo terraplanista não foram seus criticos. Foi o PISA.

bacharel em Direito, doutor em administração

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