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Os estádios que custaram bilhões – por Roberto Siegmann

Os registros da memória são verdadeiras armas em favor da razão. Os fatos quando recuperados podem servir de lição. Em contrapartida o esquecimento sempre favorece aos incautos e aos aproveitadores com uma espécie de anistia ou prescrição.

Participei de um debate na extinta TV COM – emissora pertencente à RBS – com o então prefeito de Porto Alegre, o secretário estadual responsável pelo tema, o apresentador e os representantes dos clubes.

A minha opinião foi clara: “Copa do Mundo só em países desenvolvidos, naqueles onde as necessidades elementares – saúde, segurança e infraestrutura – já estão atendidas. No Brasil será desvio de finalidade dos recursos públicos com o favorecimento de quem não necessita, mesmo desconsiderando a possibilidade da roubalheira”.

Disse também que “nos países desenvolvidos, ao contrário do que ocorre no nosso, os mecanismos de controle da idoneidade – sistemas – estão praticamente imunes ao populismo e compadrios políticos”.

Quase fui linchado, pois embora com boa-fé, todos ali estavam “pilhados pela Copa”. A onda era festejar a Copa, as ilimitadas oportunidades de negócios e de desenvolvimento.

O gigante deitado em berço esplêndido levantaria para revelar ao mundo a sua magnitude. Futebol, praias, mulatas e muito samba. Para os falastrões de plantão o país tinha os ingredientes indispensáveis para conquistar o mundo.

Em um determinado momento foi dito no programa: “… Para o Rio Grande será uma grande oportunidade. Onde a seleção italiana se instalará? Certamente em Caxias, Bento ou Veranópolis. Onde os alemães ficarão? Em Gramado, Estrela ou Morro Reuter. Os argentinos e uruguaios adotarão o Rio Grande do Sul, diante da proximidade física e da semelhança de costumes. Vejam o legado deixado na África do Sul…”

Enfim, um festival nacional de bobagens que serviam de adubo àquilo que estava sendo preparado e posteriormente revelado: “uma monumental roubalheira, em favor de governantes e de dirigentes do futebol mundial, com a intermediação das grandes empreiteiras”.

As regiões do país receberam “obras” segundo os interesses políticos. Foram construídos estádios que literalmente se encontram apodrecendo, a exemplo das estruturas bilionárias criadas para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Uma gastança descomunal para encobrir a farra da pilhagem em curso. Sob a justificativa da celeridade, permissivos normativos que flexibilizavam o controle sobre os gastos.

Ressurgem no imaginário as cenas patéticas de governantes nervosos por ocasião da eleição para sediar a copa que – sabemos hoje – foi comprada ou, ainda, pousando para tomadas no centro dos gramados, pretextando pastelônicas jogadas de futebol como verdadeiros craques, mas da indecência.

Um festival de iniquidades que teve como consequência a prisão de muitos, mas não de todos.

Hoje, diante do temor de que o coronavírus atinja as camadas mais pobres, aquelas mais expostas pela falta de cuidados sanitários, tenho a certeza que as penas deveriam ser bem outras.

A Copa do Mundo no Brasil não criou o coronavírus, mas sim as condições materiais para a sua eventual disseminação e letalidade incontrolável. Por aqui, faltam médicos, máscaras de proteção, respiradores mecânicos, leitos de UTI, exames de detecção do vírus, água encanada, esgoto tratado, comida, assistência social e vergonha na cara.

Como já disse, a bola pune, ela não convive com os delinquentes que instrumentalizam o futebol. Na semifinal levamos um histórico 7 x 1 da campeã Alemanha que, coincidentemente ostenta baixíssimos índices de mortalidade por infecção do coronavírus.

Faltam e faltarão ainda mais emprego, empresas e iniciativas econômicas sucumbirão, e as esperanças, uma vez mais, ficam postergadas para o meu neto João. O “eldorado” perdurou apenas pelo tempo suficiente para que alguns pudessem encher as mãos e os bolsos com muito dinheiro. Tipo “agarre o que puder”.

Os estádios hoje, ironicamente estão sendo utilizados para abrigarem hospitais improvisados.

Trata-se de uma pandemia, entretanto por aqui é hora de não esquecer de arrolar o LEGADO da COPA e muito menos beneficiar com o esquecimento no labirinto da memória as responsabilidades e os nomes dos gatunos (com a desculpa dos honrados felinos).

(Roberto Siegmann é advogado e foi Juiz do Trabalho – publicado no www.espacovital.com.br)

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