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Onde foi que a humanidade errou? – por Alex Pipkin

Cedo, fui levar meu filho para o colégio. Liguei o rádio e escutei uma jornalista indagar: “onde foi que a humanidade errou”?

Ela se referia a um homem, no litoral norte, que congelou animais e mantinha cães em locais e condições insalubres.

Instantaneamente veio-me à mente o mestre dos mestres, Adam Smith. Explico.

Evidente que os bondosos “humanitários” de hoje, querem humanizar mais os animais do que os próprios seres humanos! Todos devem ter direitos e mais direitos, inclusive, para alguns de tais caridosos, os direitos animalescos sobrepõem-se aos humanos.

Mas essa não é a questão principal aqui.

Centro meu foco na irracionalidade e imoralidade de matar e congelar cães – e seres humanos!! -, embora os princípios morais estabelecidos por nossas sociedades, edificados ao longo das civilizações, permitam e aceitem como natural matar e congelar vacas e bois como alimento para o consumo humano.

Nosso senso e virtudes morais nos permitem realizar julgamentos daquilo que é certo ou errado, sobre nós mesmos e em relação aos outros.

Quem leu “Teoria dos Sentimentos Morais” (1959) de Smith, sabe que como seres humanos e seres sociais que somos, preocupamos-nos com os outros e com aquelas circunstâncias que nos agregam dor ou prazer em relação àquilo que vemos, ou imaginamos e sentimos.

É o nosso amigo imaginário interno, nosso “espectador imparcial” que, naturalmente, faz-nos ter uma simpatia (eu diria uma capacidade empática, atualmente), relacionando-nos com as emoções de outras pessoas (e animais) e, por isso, também nos sentimos mal pelo sofrimento ou bem pela alegria de outrem, em especial dos mais próximos. Nossa imaginação “moral” nos incita a pensar nos nossos próprios sentimentos. Creio sim que carregamos dentro de nós um certo companheirismo pelos outros. Verdadeiramente, a simpatia smithiana é a base da deliberação moral dos indivíduos.

Nosso comportamento individual é moldado pelos outros, permitindo que possamos conviver harmonicamente dentro de certas normas sociais adequadas e compartilhadas.

Quem lê e compreende de maneira integrada toda a obra smithiana, realiza que Smith nos faz pensar que como humanos, somos ao mesmo tempo, parte egoístas e parte altruístas.

Para ele, é na sociedade comercial que ao perseguir o próprio interesse, o indivíduo frequentemente está promovendo o interesse de todos os outros imbricados nas cadeias de abastecimento, produção, distribuição e consumo e, desta forma, promovendo com mais eficácia o interesse da sociedade. De fato, mais do que quando ele realmente pretende fazê-lo. Evidente que as pessoas sentem-se bem em alcançar seus objetivos individuais e, similarmente, com as consequências não intencionais das oportunidades criadas e do crescimento econômico que auxiliam todos os membros de uma sociedade.

Afinal de contas, as pessoas não são livres para se associarem, com seus respectivos consentimentos, por meio de acordos que resultam vantajosos para todos?

Para que isso acontecesse pragmaticamente, Smith preconizava a necessidade da independência do livre mercado como força natural, sem as costumeiras intervenções estatais corporativistas e/ou clientelismos e monopólios privados ou de Estado.

Os seres humanos naturalmente agem de acordo com os incentivos, sejam esses positivos ou negativos. No livre mercado, é evidente que para o maior bem do conjunto de cidadãos, é salutar que tal interesse próprio – empreendedor – seja incentivado. Infelizmente não é o que se vê, cotidianamente, no Brasil.

Bem, Senhora jornalista, “onde foi que a humanidade errou”? Não tenho a presunção de responder tema tão complexo, mas creio, tristemente, que continuamos errando. Ao invés do livre mercado – embora estejamos presenciando uma mudança de de cultura e de comportamento no país -, muitos ainda não querer desmamar do grande Estado, dos privilégios desproporcionais e imorais de castas políticas e judiciárias nacionais, e de um status quo em que aqueles que trabalham no Estado se locupletam em razão dos que sobrevivem e, por meio do pagamento de impostos, fruto da labuta diária, sustentam tais “privilegiados”.

Parece-me transparente que precisamos que o monopólio estatal da coerção atue de forma mais equilibrada, equitativa e competente, fazendo jus a verdadeira justiça individual e contratual. Programas sociais, visando ao atendimento das necessidades dos mais carentes, formatados de maneira eficiente, tais como o Bolsa Família, são bem-vindos.

Acho que estamos equivocando-nos pela confusão abissal entre a imperiosa liberdade individual e aquilo que talvez soe grosseiro comparar; uma espécie de libertinagem.

Cada um deve ser livre para buscar a sua própria felicidade. Entretanto, a real liberdade demanda que se considere a individualidade do outro. Princípio moral e de convivência básico: minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro!

Por certo que as construções e as experiências em sociedade nos permitem evoluir, fazendo-nos enxergar para muito além de preconceitos arcaicos, tais como o racismo, o sexismo, etc., e que expressam escassez de justiça e até mesmo ignorância por parte de alguns.

Porém, é preciso lembrar que o mundo não começou hoje! Parece natural que se considerem os valores que resistiram ao teste dos tempos, provando-se serem benéficos para a vida em sociedade. Não, a vida econômica e social não é uma tela em branco, como desejam os “modernos” engenheiros sociais e suas teorias abstratas, tanto em nível econômico como social.

Cada sociedade e seu conjunto de indivíduos tem seus princípios e sua dinâmica que devem ser respeitados por todos, a fim de que todos de fato sejam livres. Descobrimos ao longo das civilizações, uma série de “verdades” que ajudaram a humanidade a evoluir culturalmente, contudo, nem tudo aquilo que foi descoberto foi positivo e proveitoso para o tecido social. Dessa forma, descobertas que se provam maléficas e falsas devem, para o bem de todos, serem descartadas.

Ironicamente, a mesma imprensa que faz apologia ao “tudo é permite” – e aos “preconceituosos” – é aquela que indaga “onde foi que erramos?”!

Além de sermos seres sociais, somos um misto de virtudes e vícios. O que também nos diferencia uns dos outros é a nossa capacidade de exercer o crucial autocontrole. Aquilo que separa homens de crianças. É a partir do domínio próprio que podemos explorar todas as outras virtudes humanas e nos unirmos na vida em sociedade.

Nesse sentido, alguns sentimentos devem ser preservados e outros minimizados em função dos outros. Para tudo na vida existe momento e local adequados. Não existe uma “verdade” composta apenas de direitos; há inequivocamente deveres!

Aquele que é vaidoso em considerar apenas seus desejos e suas vaidades, acredito que não passa de um sujeito perverso e desonesto, gatuno da liberdade dos outros.

Nem de longe trata-se de um falso moralismo. Constranger os outros, desrespeitando determinadas e comprovadas regras, liturgias e ritos salutares, é o mesmo que roubar a liberdade de outrem.

Será que estamos errando neste aspecto? Sistematicamente e muito!

doutor em administração

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