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O mundo deve repensar a China – por Luiz Marcelo Berger

O ano mal começou e já encontrou o seu termo. Claro que não se trata de abreviação temporal, pois a vida segue e ainda existe muito tempo hábil para que uma infinidade de outros eventos possam acontecer, mas é pouco provável que outro vírus consiga superar o estrago mundial provocado pelo covid-19. A pandemia está longe de terminar, mas seus efeitos vão repercutir por muito tempo pela frente. Trata-se de evento paradigmático, capaz de mudar radicalmente os destinos da sociedade para um futuro até então pouco provável.

Thomas Kuhn escreveu sua obra seminal, A Estrutura das Revoluções Científicas, em 1962, sem de fato contemplar sua monumental importância e capacidade explicativa sobre eventos que sequer poderiam ser cogitados quando foi publicada.

Eram tempos de guerra fria, as feridas da segunda guerra ainda estavam sendo cicatrizadas e a participação norte-americana em guerras estava longe de acabar, primeiro na Coréia e, posteriormente, no Vietnã, após a retirada dos franceses em decorrência da humilhante derrota em Dien Bien Phu, sem esquecer da crise dos misseis de Cuba, que quase provocou um confronto nuclear.

O argumento central de Kuhn repousa na percepção que a ciência, e portanto, a história, não se processa de forma linear, uma mera reta na qual se anota de forma tediosa eventos históricos simplesmente por que estão em sequência temporal. A lógica que regula os acontecimentos ultrapassa o mero registro histórico, sendo determinada por saltos disruptivos que alteram a direção dos movimentos que conduzem as decisões dos mais diversos agentes, particularmente, lideres em posição de comando. A noção de que existe progresso apenas pelo mero acúmulo de conhecimento não é suficiente, quando novas questões são formuladas, desafiando o status quo a partir da ocorrência de anomalias que alteram as regras do jogo.

Kuhn observa que o progresso científico ocorre por mudanças de paradigma, nas quais conceitos e arquétipos consagrados são pulverizados pela força transformadora dos fatos, exigindo mudanças de curso capazes de alterar até mesmo os destinos da humanidade. A pandemia provocada pelo novo coronavirus chinês é um destes eventos paradigmáticos.

Até a ocorrência da pandemia, a posição relativa de cada país e sua esfera de influência parecia se encaminhar para um equilíbrio de funções e papéis previamente definidos para todos os atores globais. Estados Unidos, como não poderia deixar de ser, manteriam sua posição de liderança, mas agora estariam sendo desafiados pela nova potência global, a China, cujos interesses planetários se revelariam claramente em conflito com a agenda da ainda maior potência mundial.

No cenário já superado, alguns países ainda desempenhariam papéis importantes, com destaque principalmente para os integrantes da União Européia e Rússia, que ainda desfrutariam de certa influência nos círculos de poder mais restritos do globo. O resto do planeta se resumiria a áreas de conflito, notadamente Oriente Médio e África e, finalmente, América do Sul, com destaque para o Brasil, cuja capacidade de influenciar os acontecimentos mundiais é, digamos, bastante modesta.

Os papéis já haviam sido definidos, tendo o protagonismo industrial chinês assumido posição de destaque, seguido por outros membros integrantes deste grupo de produtores de artigos utilizados em praticamente todo o espectro industrial, como Coréia e Japão. A hegemonia chinesa já havia se tornado um fato consumado, atingindo grau monopolista em diversos setores estratégicos, quando muitos países, particularmente os Estados Unidos, perceberam que parcela expressiva de sua economia dependia quase inteiramente das linhas de produção sediadas na China, mesmo em setores sensíveis, como por exemplo, medicamentos.

O resultado é que hoje, nações inteiras estão vergando frente ao peso inexorável de decisões que colocaram cadeias inteiras de produção nas mãos do Partido Comunista Chinês, PCC, cujo apetite para a democracia e o livre mercado é equivalente ao interesse de um vegetariano em consumir proteína animal.

A pandemia covid-19 implodiu este equilíbrio politico-econômico.

Nações cujas lideranças estão alinhadas em proteger o fornecimento regular de produtos essenciais ao funcionamento normal de suas economias soaram o alerta vermelho. O gatilho para esta mudança de paradigma foi o comportamento perturbador do partido comunista chinês, que durante período inicial crítico acobertou criminosamente a comunicação da gravidade do surto às autoridades mundiais, utilizando sórdidos expedientes típicos das piores ditaduras para tentar impedir o inevitável, como se fosse possível conter o contágio apenas por que assim foi decidido pelo comitê central do partido.

Esta atitude irresponsável, aliada ao contexto econômico vigente, decretou uma ruptura, pela qual a China deve responder severamente pelos prejuízos imensos causados pela sua incompetência e omissão. Mais importante ainda, países minimamente responsáveis devem criar incentivos para que sua base industrial desenvolva novas capacidades tecnológicas e cadeias de suprimentos capazes de prover estas necessidades de forma eficiente, para assim reduzir consideravelmente sua dependência de fornecedores chineses, o que definitivamente não vai ocorrer no curto prazo. Estados Unidos, como não poderia deixar de ser, estão liderando este movimento. Mas e o Brasil? Certamente o círculo do poder em Brasilia deve estar considerando algumas alternativas, além de gastar centenas de milhares de reais em lanchinhos para as autoridades que voam nos jatinhos da FAB.

bacharel em Direito, doutor em administração

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