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O (mau) legado da Dilma, a falta de reformas e o coronavírus – por Douglas Sandri

Em uma pandemia poucas são as variáveis que podem ser controladas. Muitas sequer são conhecidas. A propagação do coronavírus que está causando a maior mudança de rotina no mundo desde a segunda guerra mundial fará com que a economia emerja diferente quando tudo isso acabar provavelmente no segundo semestre de 2020.

Há que se colocar em perspectiva o que está acontecendo. Os líderes das principais potências mundiais têm tratado do assunto com total seriedade e assumido a responsabilidade pela tomada de ações que minimizem as transmissões. Nunca desde o advento da União Europeia as fronteiras foram fechadas entre os países. Desde a invenção da aviação comercial moderna nunca se viu uma parada total de vôos por tempo indeterminado sobre o oceano atlântico. O mundo não viu pela televisão a quarentena de um país inteiro como a Itália. Há 60 anos não se via a água cristalina em Veneza.

Mesmo as economias mais vigorosas do mundo passaram e vão passar por tempos dificílimos quando tudo isso acabar. O mundo parou de produzir e reduziu o consumo drasticamente em poucas semanas, cada país a seu tempo. O Brasil estava de recesso quando, em janeiro, as notícias pipocavam na China, que negou e tentou encobrir a doença enquanto deu. Viramos o ano e apenas a reforma da previdência havia sido aprovada de relevante em 2019.

O Brasil recebido pelo presidente Michel Temer após o impeachment de Dilma estava em frangalhos. O PIB era negativo, desemprego nas alturas, os preços ficaram represados por muito tempo, os gastos públicos descontrolados, consumidores endividados até o pescoço, a injeção de capital via BNDES na economia havia destruído mercados que se concentraram nos campeões nacionais e havia uma quadrilha instalada no poder. No lugar de hospitais, o PT construiu estádios de futebol e parques olímpicos no Rio. As universidades públicas foram infladas de concursadas em detrimento da educação básica. Os parlamentares, eleitos antes da crise se apresentar em 2014, eram reticentes com reformas. Mesmo assim aconteceram as aprovações do teto de gastos, uma tímida reforma trabalhista e, não fosse o Joesley Day, teria havido a reforma da previdência já naquela época.

Página virada e o novo governo entrou com força, mas os desentendimentos e a falta de uma base no Congresso têm atravancado as reformas no parlamento. A reforma da previdência ocorreu, mas sem a implantação da capitalização, ficou incompleta e abaixo do R$1 trilhão pretendido. A reforma tributária esperou o segundo semestre de 2019 por uma proposta do Ministério da Economia – sem uma CPMF – e a reforma administrativa ainda não tem preto no branco. Dentre as propostas apresentadas no Senado, a PEC Emergencial, mais importante reforma fiscal no pipeline, ainda não foi sequer aprovada na CCJ do Senado.

Cambaleante, a economia cresceu na casa do 1% em 2019 e não gerou o tão esperado e simbólico um milhão de empregos. As pessoas estavam confiantes com o começo de ano quando, de repente, o dólar começou a subir por causas externas. Era o sinal do tsunami que viria do continente asiático.

A pandemia de coronavírus chegou em um Brasil que demorou a fazer o seu dever de casa na economia e que se deu ao luxo de entregar-se ao populismo petista anos atrás. Quase perdemos o plano real com a crise da Dilma, a mais profunda que já havíamos passado. A presidente impichada inventou uma crise internacional para justificar suas bobagens e afundou o país em uma recessão que até hoje não saímos. Agora descobrimos que o mal que o PT causou à nossa economia nem sequer chegou ao final. Quando tudo isso terminar, não restará alternativa senão passar todas as reformas e fazer a reinvenção mais profunda que o Estado brasileiro já viu. Não dá para esperar até o final da crise para reescrever a Constituição Federal de 1988 por meio de emendas que a reformam, caso contrário não haverá sequer uma luz no fim do túnel.

Engenheiro eletricista graduado na Universidade Federal do RS e assessor parlamentar na Câmara dos Deputados

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