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O fantasma que escancara nossas chagas – por Daniel Andrade

Numa das tardes do verão passado em que depois de um churrasco com os amigos ficamos conversando numa roda de bate-papo fui fuzilado por uma pergunta de um amigo holandês que se mudou para o Brasil no final de 2018 e que já domina a língua portuguesa: por que no Brasil os motoristas diminuem a velocidade dos veículos quando passam por um controlador de velocidade? Respondi de “bate-pronto” sem pestanejar: para não ultrapassar o limite de velocidade estabelecido. Espanto!! Dele e meu. Antes mesmo de assumir a incoerência de minha resposta o amigo disparou: mas não deveriam estar em todo o trecho trafegando no limite estabelecido? E novamente antes que eu pudesse concordar, veio a terceira pergunta: por que no Brasil, nas estradas de pista dupla, muitos motoristas trafegam permanentemente na faixa da esquerda? Novamente, abalado pelas perguntas anteriores e afetado pela cerveja do almoço, lá fui eu respondendo sem refletir: porque a faixa da esquerda é a que permite trafegar na velocidade mais alta. Veio então o tiro de misericórdia: na Holanda e na Europa a faixa da esquerda é exclusiva para ultrapassagens e você recebe uma multa se permanece nela.

São mais de 40.000 mortes por ano no trânsito brasileiro e 25% dos leitos de UTI são ocupados por acidentados nas estradas e nas ruas das cidades do nosso país. A pandemia do Covid-19 está escancarando esta chaga sem fim dos acidentes de trânsito, pois afinal, como informa o Ministério da Saúde, o Brasil, somando as unidades de redes públicas e privadas, tem mais leitos de UTI que países europeus como França, Itália e Reino Unido. Eram 2,62 leitos para cada 10 mil habitantes, no Brasil, no início de março, enquanto a proporção na Itália era de 0,83, no Reino Unido 0,6 e na França 1,05 na mesma data.

Este elevado número de leitos de UTI antes da pandemia foi atingido principalmente por causa do “trauma” gerado pelo trânsito, segunda maior causa de internação depois das causas neurológicas e cardiovasculares.

Com o isolamento social marcado pelo slogan “fique em casa”, houve uma redução espantosa de 70% das entradas em emergências de hospitais, e grande parte desta redução se deve a quase paralização do trânsito nas estradas e cidades brasileiras.

Será que precisamos fazer uma campanha de comunicação com a mesma intensidade da campanha do coronavírus para alertar a população deste risco tão letal? Ora, quantas campanhas de esclarecimento, educação e alerta já implementaram os governos, os órgãos de segurança de trânsito, os meios de comunicação, neste país, nos últimos 20 anos? E nada mudou! Onde está o problema? Quando vamos acabar com esta tragédia que já matou mais de meio milhão de brasileiros na última década, e deixou milhares de sequelas físicas e psíquicas principalmente em jovens (60% das mortes no trânsito são de pessoas com idade entre 15 e 39 anos)?

Quando na condição de secretário dos transportes do RS entre os anos de 2007 e 2010 pude me aprofundar no tema da precária condição das estradas gaúchas, não muito diferente do restante do Brasil, e não muito diferente da realidade atual, comprovei que além da total irresponsabilidade de boa parte dos motoristas, ilustrada pelos hábitos constatados pelo amigo holandês, a realidade estrutural das vias de trânsito do nosso país é a principal causa desta profunda chaga.

Será que o “novo normal” vai mudar também nosso olhar e nosso agir em relação ao que devemos fazer para eliminar o vírus do descaso individual e coletivo que mata tanto?

Se tivermos a coragem, a determinação e o altruísmo de no “pós pandemia” continuarmos com todas as ações de solidariedade, públicas e privadas, especialmente as doações e transferências financeiras de grande porte, para fazermos frente, em um grande mutirão que possa reconstruir e aprimorar nossas vias de trânsito por este país continental, talvez possamos dizer que somos uma nação que cuida dos seus filhos, não só nos momentos de uma crise aguda, mas no dia a dia da normalidade, porque muito triste será, quando acabar o isolamento, não podermos nos encontrar com nossos amigos e familiares por termos deixado a vida no caminho do encontro.

(Daniel Andrade é Engenheiro Civil, Empresário e Ex-Secretário de Transportes do RGS)

 


 

(Este é um artigo de opinião do autor. Não reflete necessariamente, como os demais artigos aqui publicados, a opinião do site)

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