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O duplo tribalismo das políticas identitárias – por Alex Pipkin

A polarização na vida política e social não tem nada de negativo, mesmo porque nós somos naturalmente pessoas diferentes e, assim, pensamos distintamente.
Contudo, pólos diferentes só se unem total e umbilicalmente nas artes!

O problema em sociedade nasce quando tal polarização é extrema, tornando-se tóxica. E é exatamente isso que hoje vivenciamos, e que, inegavelmente, está muito longe de ter fim.

Como seres humanos e criaturas relacionais, formamos nossas identidades sociais com base naquilo que não gostamos nos outros. Dessa maneira, nos aproximamos e nos associamos com aqueles com os quais compartilhamos afinidades, sejam essas políticas, econômicas e sociais, que possuímos e/ou que desejamos ter. Similarmente, afastamo-nos daqueles com os quais não queremos parecer.

Trata-se do básico sentimento de pertencimento. Aspiramos fazer parte de determinados grupos sociais, na qual símbolos expressam valores, aspirações e temores, e sinalizam características econômicas, sociais, políticas, culturais e raciais.

A grande transformação ocorrida na esfera política nos últimos tempos, parece ser resultado do protagonismo das políticas grupais de identidade frente ao pensamento e as ideias políticas comprovadamente benéficas e que trazem as melhores consequências para todos.

Tais ideias políticas são aquelas baseadas em fatos e dados, na razão, na ciência fatual e no conhecimento, para muito além dos desejos de grupos específicos e de suas vontades utópicas e tecnicamente desarrazoadas.

Por que se chegou a esta situação? Bem, as razões são extensas e complexas.

Porém, dentre essas cabe destacar o desalento com a classe política, ou seja, sua pouca eficiência pragmática em trazer resultados efetivos para a população e, alinhado com este aspecto, os interesses tacanhos de políticos irresponsáveis e mal-intencionados, especialmente em ganhar e garantir o voto de determinados grupos identitários.
Aqui ainda é pertinente a obsoleta divisão entre direita e esquerda. Pela direita, busca-se a população mais apegada a religião, a educação dita tradicional, e a grande parte da classe trabalhadora, que de alguma forma sente-se prejudicada pelas políticas identitárias que vem sendo concedidas as minorias identitárias, justamente aquelas que predominante votam em candidatos de partidos de esquerda.

Não há dúvidas de que talvez o maior responsável pela polarização extrema sejam os meios de comunicação, tanto o partido da grande mídia, “progressista” nos costumes, e desesperadamente atrás da publicidade e das verbas governamentais, como também as mídias sociais, que potencializaram o racha político e social, justamente pelo fenômeno do pertencimento aos respectivos grupos identitários.

Demos um meia volta volver, mas para o tribalismo!

Os sentimentos tribais de identidade assumem características de uma cultura dentro da cultura geral, determinando comportamentos, aparência e crenças idiossincráticas, e implicando em relações de amor e de fanatismo grupal.

Essas identidades grupais tornam-se uma segunda pele, já que o indivíduo sente-se acolhido e pertencente àquele grupo, pelo qual cuida e se importa. Claro que nessas circunstâncias o abandono cognitivo e sentimental do grupo é extremamente difícil.

Mesmo embora saibamos que a política é a arte do compromisso, e que assim negociações são inevitáveis, aparenta que os homens – ah, e as mulheres – preparados e com genuíno interesse no bem público, desapareceram do mapa.

Nem políticos, tampouco eleitores, parecem se preocupar com as ideias políticas construtoras de políticas públicas orientadas para o progresso e o desenvolvimento econômico e social de todos.

Os valores identitários da outra parte, contaminados pelos sentimentos e pelos institutos tribais, fazem-os inimigos reais. Desse modo, o campo de batalha identitário de cor, raça, gênero, direitos, e respectivos projetos econômicos, sociais e culturais, apresenta-se bem pavimentado para a guerra tribal, que aparenta não ter fim.
Não parece haver solução para se encontrar pontos em comum, a fim de que se possam resolver problemas comuns.

Há impossibilidade lógica de crescimento econômico e social, quando parte dos políticos e da população acredita que o saco não tem fundo, ou seja, que não existem restrições orçamentárias no Estado.

Não haverá progresso e desenvolvimento para todos adotando-se medidas populistas e comprovadamente mal-sucedidas.

Bem, embora o problema seja a pobreza, evidente que programas sociais inteligentes de distribuição de renda são importantes, em especial em países como o Brasil.
Aliás, o Bolsa Família é um bom exemplo de programa bem-sucedido. No entanto, é preciso compreender e considerar que o Estado não cria riqueza e, portanto, tem seus limites, a fim de não tributar ainda mais a sociedade e empobrecer a todos.

Pois bem, não creio que conseguiremos unir os enraizados e entrincheirados nos seus respectivos grupos identitários.

Não há consenso mínimo por pautas embasadas no que funciona pragmaticamente, fruto da ciência econômica, do conhecimento e da razão, mesmo que amparada por um humanismo “racional”.

A peleia identitária prosseguirá rolando solta, com políticos e indivíduos propensos aos tradicionais favores especiais aos colegas tribais.

Nada mais natural, afinal ninguém quer sair com a sensação de ter decepcionado os irmãos e os amigos das tribos.

doutor em administração

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