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Morte e reconhecimento – por Marcus Boeira, de Roma

“Sunt lacrimae rerum et mentem mortalia tangunt”[1]

Virgilio

[1] “Há lágrimas para o infortúnio e o destino dos mortais comove as mentes”. Eneida, I, v. 459. Virgilio.

Estamos mortos! Mersault, personagem de Albert Camus em Os Estrangeiros, no velório ante o corpo de sua mãe, não apresenta nenhuma reação emocional, nenhum sentimento, nada. Seus olhos constituem uma janela sem filtro para o mundo. O outro, nesta dimensão, não é um “outro”: é um estranho, um estrangeiro, alguém que nada significa para mim senão um empecilho para a minha liberdade de ir e vir.

Dentre os atributos da condição humana, a inclinação para a guerra e o reconhecimento despontam com notável relevância. Nossa peculiar condição, composta pela parte animal e pela dimensão do espírito, onde a inteligência e a vontade aparecem no horizonte constitutivo de nossa existência, conduzem, dentre outras coisas, a constatação de que somos animais racionais e, sobretudo, relacionais. Somos seres miméticos. Imitamos modelos, apreendemos tomando os outros como padrões estéticos atrativos para as imagens que formamos, para os atos que realizamos e para as coisas que produzimos. Para tanto, dependemos dos outros. E, para que esta mútua dependência possa suceder-se, é imprescindível que cada um de nós reconheça o outro como um igual, como um ser de idêntica condição.

Na guerra, a hierarquia, a territorialidade e o domínio brotam como postulados básicos, por cujas regras alguém pode ser conduzido à vitória. Vitória, aqui, significa o domínio sobre o outro. Mesmo na guerra, o outro demanda algum grau de reconhecimento. O “preparo” para a guerra supõe que o outro desperte em nós algum receio, algum grau de temor que exige uma medida adicional, uma preocupação que transcenda os meros instintos imediatos e nos dirija a um centro de decisões mediatas, decisões que requeiram deliberação e estratégia. Temos de tomar decisões de um modo racional, com o apoio de virtudes imprescindíveis, como a coragem, a temperança, a ordem, o autodomínio, a sagacidade e, sobretudo, a prudência.

Prescindir da razão nos leva a morte. Mas, mesmo na guerra, o reconhecimento do outro é um atributo fundamental e premente. Quando nos vemos diante de um inimigo comum, um microrganismo invisível, temos de repensar o modo como os atributos mencionados germinam em nossas intenções. Porque reconhecemos o outro não mais como um adversário, mas como um aliado, um irmão, passamos a direcionar os nossos esforços para o cotidiano exigido, o procedimento necessário para derrotar o inimigo letal. Em nosso caso, o cotidiano é o mais simples: lavar as mãos, limpar os bens materiais, permanecer ou mover-se com distância segura em relação aos ouros, etc. Porém, um cenário assaz escatológico como o que se desenha perante os nossos olhos pode atiçar a profusão de novas pandemias em um futuro não distante, com partículas elementares cada vez mais letais, em suma, uma nova paisagem social onde o nosso modo de reconhecer os outros se altere de forma implacável.

Em alguns seres humanos, este novo cotidiano emerge como um mundo melhor. Um lugar sem relação. Não há mais guerra: o outro não representa nada para mim; no fundo, nunca representou. A maior vingança contra o mundo externo é o desprezo: “injuriarum remedium est oblivio”. O egocentrismo e o individualismo possessivo jamais poderiam penetrar tão profundamente as sendas de uma sociedade sem que um adversário ainda mais letal para nossa condição do que o próprio vírus, a saber, o temor generalizado da morte, ocupasse um espaço tão considerável em nosso cenário biopsíquico.

A morte da relação humana e do reconhecimento recíproco em nome da vida representa, no fundo, a morte de nossa própria condição. Viver isolado, mas morto para os outros. Não há mais um “outro” com quem eu deva relacionar-me. Para os outros, estou morto. Para mim, os outros não são “outros”. O meu vizinho não é “alguém”; é “algo”. Os outros são seres dispersos, corpos ocupando lugar no espaço, indivíduos com quem não possuo nenhum contato. Um individualismo possessivo. A guerra biológica atual, encabeçada por médicos e cientistas contra o inimigo invisível, está reconfigurando o mapa das relações humanas rapidamente.

No Estrangeiro de Camus, o narrador, Mersault, comete assassinato, mas ao final demonstra algum resquício de autoconsciência. Antes, perante a cerimônia fúnebre da própria mãe, ecoa palavras frígidas, típicas de um estranho, um estrangeiro: “mamãe morreu, talvez ontem. Na verdade não sei……. O asilo me enviou uma mensagem: Mamãe morta. Sinceros sentimentos. Enterro amanhã”. Ao que a reação imediata pronuncia a ausência de qualquer emoção: “isto nada quer dizer. Talvez a morte tenha ocorrido ontem. Não sei”.

Em um paralelo com Raskolnikov de Crime e Castigo, obra de F. Dostoievski, Mersault perfurou todos os limites de sua consciência para “matar”, eliminar com certa crueldade o outro de seu mundo. Para então, após consumado o ato, cair em si, reconhecendo sua real condição: “restava-me apenas, então, desejar que no dia de minha execução sumária comparecessem muitos espectadores, hostis e com gritos de ódio contra mim”.

A gravidade do crime de Mersault não pode ser medida, segundo ele próprio, somente pelo assassinato como tal, mas pelo motivo que o levou a consumá-lo: o não reconhecer o outro como um ser humano. O ato em si, o homicídio, decorre desta inerte debilidade psicológica. No mundo do primeiro Mersault, o advento de um contágio em larga escala como o que estamos enfrentando, representaria a reificação, a cristalização do mundo ideal, um lugar sem o outro, um mundo indiferente ante a condição humana.

No fundo, a pandemia que se propaga em nossos dias não mostra apenas a fraqueza de nossa condição. Demonstra, antes, que ao não reconhecermos o outro como um ser igual e com quem compartilhamos certos bens, como a mútua dependência, e a nós mesmos como seres que podem transcender o medo da morte para viver, caímos no mundo de Mersault: passamos a ser “infectores”, seres perigosos para os outros. E, se o adversário invisível e letal modificar o horizonte de nossos temores, atitudes e emoções a tal ponto, levando-nos a temer a morte a todo tempo, então é porque já estamos mortos!

(Marcus Boeira é professor visitante na Pontificia Università Gregoriana, em Roma. Professor de Lógica e Filosofia do Direito na Faculdade de Direito da UFRGS. Doutor pela USP) 

[1] “Há lágrimas para o infortúnio e o destino dos mortais comove as mentes”. Eneida, I, v. 459. Virgilio.

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