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Meu pai jamais esqueceu de ensinar – por Cesar Cidade Dias

A doença que interrompeu a vida produtiva do meu pai por mais de uma década e que o fez descansar desta existência apenas encerrou um ciclo de convivência. Poderia aqui citar as centenas de qualidades que eu via nele e que me inspiraram, mas esse é um encantamento só meu.

Aqui, preciso pensar no ensinamento coletivo e no que representam estágios tão longos que somos expostos a viver: a afetividade da produção de histórias, a dificuldade do enfrentamento dos problemas e a reflexão sobre a sensação de finitude.

O que ele quis nos dizer nesta passagem pela vida?

Meu pai era o homem da palavra, da convivência com amigos e de uma conexão afetiva muito própria. Ele gostava de gente, de estar cercado de gente. Fez isso por mais de 60 anos, produzindo grandes passagens na vida social e profissional.

Neste período, o da produção de histórias, vivemos em uma mar de novidades diárias, cercados de inteligência emocional e uma vontade de viver digna dos gigantes.

Mas veio a doença e ela chegou cedo.

Com pouco mais de 60 anos, as suas capacidades foram diminuindo e a sua memória se foi, completamente. Sem conseguir raciocinar (que era o seu sentido preferido), ele ficou em completo silêncio por muito tempo.

Neste período de clausura intelectual e falta de lembranças, esposa, filhos, irmãos, netos e amigos andaram, muitas vezes, sem rumo. É difícil de aceitar a falta da presença de um espírito que enchia a casa.

O curioso, e talvez esteja aí a conclusão de tudo isso, é que as pessoas que seguiam buscando encontros com ele o faziam para contar as suas próprias histórias. Foram centenas e centenas de vezes que eu disse:

– Pai, lembra daquela vez…

A sua figura havia virado um espelho das suas façanhas e essa é uma lição importante dentro desta reflexão.

Neste período, em silêncio e com os olhos fixados em um mundo próprio, ele ouviu tantas e tantas passagens suas com quem estava ali para abraçá-lo e confortá-lo que fez com que essas histórias ficassem ainda mais marcadas na mente de cada uma daquelas pessoas.

E aí chegamos ao terceiro ponto.

Este espaço de tempo nos ensinou que a memória é a exclusão da finitude nas relações pessoais.

Meu pai nos fez, da sua forma, lembrar por anos tantas e tantas passagens que jamais esqueceremos de uma vírgula de toda a nossa história.

Seu sorriso, sua palavra amena e respeitosa jamais serão esquecidas pelos que o seguiram e essa é a forma mais definitiva de tê-lo sempre entre nós.

Quando perdeu a memória, ele sabia que não construiria mais histórias. Mas, sem saber, nos entregou uma lição ainda mais definitiva.

A sensação de finitude não existe se as histórias estiverem tatuadas na nossa memória. E foi isso que ele fez.

Obrigado Pai, filho, irmão, amigo, avô…

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(Cesar Cidade Dias é comentarista esportivo e apresentador do programa “90 Minutos”, na Rádio Bandeirantes de Porto Alegre. O pai dele, o advogado Cesar Dias Neto, faleceu nesta sexta-feira após uma longa luta contra o Alzheimer)

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