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Lula não é Zico – por Guilherme Baumhardt

Lula foi jogar uma pelada com alguns amigos e a turma do MST. É o que restou para o condenado. São os amigos que sobraram. A claque que aplaude a alma mais pura do planeta sob qualquer circunstância, mesmo com o mau cheiro da podridão revelada pela Operação Lava Jato. Protegem-no mesmo que esteja jurando fidelidade com a cueca marcada por batom.

Alguns amigos disseram que teve até jurista renomado na partida. O “senhor hermenêutica” estava em campo, ao que consta. Não sei se procede. De qualquer forma, minhas referências neste campo são outras. Passam por figuras como Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, Sérgio Fernando Moro, João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen, Victor Luiz dos Santos Laus. Querem mais? Eugênio Paes Amorim e Bruno Carpes. Existem outros. Acredito que eles não estariam em uma partida com gente que invade propriedade privada ou com pessoas que saquearam os cofres públicos.

Chico Buarque, sempre tão talentoso no período militar, é incapaz de ver e reconhecer culpa no amigo condenado por lavagem de dinheiro e por receber propina. Não ouvi nenhuma música, não li nenhum verso sobre o tema. Nesta hora, lembro do grande Millôr Fernandes: afinal, era ideologia ou investimento? As “qualidades” do Chico se confrontaram com o Millôr, como o próprio Millôr disse em uma entrevista ao programa Roda Viva. Porque Millôr era e sempre será Millôr. Um gênio. Chico será sempre o quê?

Se fosse possível deixar de lado tudo o que a Lava Jato revelou sobre o ex-presidente, como talvez façam os amigos de pelada, minha maior frustração é com uma gigantesca oportunidade perdida. Lula teve a faca e o queijo na mão para ser o maior estadista que o país já teve. Precisava encarar e fazer reformas desgastantes: previdenciária, política, tributária. Tinha ao seu lado a popularidade e o momento econômico favorável em boa parte do governo.
Sim, levaria tempo. Anos, décadas talvez. Mas ele entraria para a história, depois de implementadas as mudanças. Conquistaria um lugar digno e honroso nas páginas dos livros de história. Optou pela comodidade do reconhecimento imediato, mas efêmero. Preferiu as páginas policiais dos jornais ao fazer um governo populista barato, que ficou marcado pelo maior escândalo de corrupção do país e um dos maiores do mundo.

Margaret Thatcher não conquistou a alcunha de Dama de Ferro por acaso. Defendeu princípios de liberdade e peitou gente poderosa. Colocou no seu devido lugar sindicalistas mais interessados nos próprios umbigos do que no bem-estar social. Que o diga o líder dos mineiros britânicos, o socialista Arthur Scargill. Para gente assim, aquilo que os toca vem sempre em primeiro lugar, mesmo que para isso pessoas passem frio, como ocorreu no gélido inverno britânico, com a greve dos mineiros liderada por Scargill. Maggie acertou mais do que errou. Conquistou o respeito dos seus mais ferozes opositores e tem o seu legado reconhecido.

Voltando a Lula, sobrou a pelada com os amigos do MST, um movimento bandoleiro, cuja única paragem é a propriedade privada alheia, derrubando cercas, matando gado e destruindo lavouras e maquinário agrícola. Tenho pena daqueles que são usados como massa de manobra, mas minha simpatia termina aí. Assim como fazem os líderes do MST, Lula ameaça percorrer o país promovendo cizânia, instabilidade e vendendo ilusões. Está livre agora, graças a uma suprema corte que revisita temas com uma frequência assustadora, tal qual o caso da prisão em segunda instância.

Bolsonaro agradece. Enquanto houver a teimosia petista encarnada em Lula de não reconhecer erros e buscar um novo norte, o Brasil sério e que trabalha buscará o antídoto para isso. Bolsonaro não era e continua não sendo o candidato e nem o presidente dos sonhos de muitos. Bastou ser o anti-Lula e tudo que, hoje, o condenado representa. Está fazendo reformas.

No futebol, o governo Lula talvez guarde semelhanças com a seleção brasileira de 1982. Tinha tudo para ser campeã do mundo, jogando futebol como uma orquestra magistralmente regida. Não chegou lá. A diferença é que os torcedores ainda se orgulham da turma liderada por Zico e Falcão. Para Lula, restaram o banco dos réus e a cadeia.

(Guilherme Baumhardt é jornalista. Artigo publicado no Correio do Povo em 26.12.19)

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