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Linguagem e guerra cultural – por Leonardo Giardin de Souza

Há muito o embate de perspectivas acerca da criminalidade no Brasil decaiu do status de discussão honesta para uma guerra narrativa em que experts demagogos têm como alvo a realidade, cuja cidadela, o resto da sociedade, alcunhada “punitivista”, tenta defender do jeito que pode.

Nem só de fuzis vivem os criminosos. Certos “cientistas” são verdadeiros snipers quando se trata de destruir a linguagem, provocando distanciamento generalizado da realidade (a começar por si mesmos e por quem os leve a sério).

O pensamento abstrato é essencial para o progresso do conhecimento. O homem se diferencia do animal por sua capacidade de ideação. Porém, a consciência humana, na subida às alturas abstratas a que só ela pode elevar-se, deve manter-se conectada à concretude. Do contrário, as ideias criam autonomia em relação à realidade, alheamento que degenera no véu de ideias que camufla objetivos de poder inconfessos (ideologia) – ou, como ensina Mário Ferreira dos Santos, em abstratismo vicioso, morbidade geradora do que Voegelin chama estado de alienação, com ingresso em uma segunda realidade.

Eis o especialista da proveta laureada que, sem jamais ter pisado numa favela ou visto o impacto de uma bala de fuzil no crânio de um vivente, arvora-se a ensinar o Padre Nosso ao Vigário, sem a apavorante necessidade de assumir responsabilidades pelo resultado prático de suas teorias.

Orwell nomeou novilíngua a substituição calculada da linguagem objetiva por eufemismos ocos que não dão conta de presentificar os objetos – o que explica a inexplicável troca de expressões autoexplicativas como “preso” por um fluido “pessoa em situação de cárcere”, de pronto sugerindo que o “indivíduo em conflito com a lei” encontra-se em uma posição fortuita, não por obra própria, mas de imponderáveis caprichos do destino. A anomalia não ocorre sem consequências: ao censurar a precisão vocabular e a correspondência entre o real e a linguagem, gera-se uma formidável perda cognitiva. As palavras, vácuas de conteúdo, perdem poder descritivo e passam a ter apelo estritamente emotivista. Signos insignificantes mas hipnóticos, sineta agitada pelo e para o demagogo.

Palavras criam realidade psicológica, signos que povoam a mente e conformam seu mundus imaginalis, acervo arquetípico que dirige a assimilação da realidade externa. A consciência jaz perdida e manipulável quando nosso mundo simbólico interior se desconecta dos entes que os signos devem mediar, fenômeno que, coletivizado, cria rebanhos de fantoches manejáveis para matar e morrer por crenças irracionais inculcadas desde fora.

O infeliz homem, qual cão amestrado por Pavlov, odeia quem deveria louvar e exalta quem deveria repudiar. Hipnotizados por demagogia vil, nós, os cordeiros, passamos a ansiar por acolher eles, os lobos, com a febril serenidade e paz de espírito de quem se crê mais caridoso que o próprio Deus. A demagogia induz ao suicídio da sociedade avassalada, que se prostra, suplicante e submissa, aos pés do predador que cevou.

Promotor de Justiça e escritor

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