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Jornalismo em tempos de rede mundial – por Luiz Marcelo Berger

Uma profunda crise está sacudindo os meios de comunicação do país, abalando os fundamentos sobre os quais foram construídos todos os processos de produção e distribuição de notícias e informações.  Não começou agora, mas definitivamente está longe de terminar. Muitos acreditam que esta crise ocorre apenas no Brasil, debitando grande parte desta percepção aos eventos que se abateram sobre o país pelo menos nos últimos cinco anos, ou mais precisamente quando do início do segundo e desastroso governo Dilma.

O fenômeno, de fato, tem escala mundial, mas é especialmente mais agudo em países ocidentais governados por sistemas políticos que compartilham diversos graus de democracia, nos quais o papel do texto jornalístico desempenha papel essencial na própria construção e aprimoramento de suas instituições.

Até alguns anos atrás seria impensável imaginar que a oferta de informação atingisse sequer uma fração daquilo que se observa hoje. A massificação na forma como se expressa atualmente é um fenômeno bastante recente, não contando talvez duas décadas no total. Ocorre que em poucos anos, este verdadeiro tsunami atingiu todos os meios de mídia de massa, alterando radicalmente o cenário estabelecido e desafiando estruturas centenárias sobre as quais foram montadas as bases da indústria da informação.

Inevitável constatar que a principal destas estruturas severamente abaladas foi a credibilidade dos textos, deixando exposta uma fratura como jamais havia ocorrido em tempos pretéritos. Esta ferida aberta revelou um quadro impensável, não concebível, pelo menos, após décadas de ensino jornalístico conforme este foi concebido originalmente nas melhores escolas de formação profissional, solidamente fundado em princípios éticos, especialmente no campo da reportagem, que serviam como garantia de isenção e honestidade no uso da palavra. Não mais.

A principal constatação: informação é poder. O resto é mera decorrência. Pessoas em geral não percebem isso de forma mais explicita, pelo menos homens e mulheres que estão mais preocupados com suas rotinas de labuta diária. Mas governos sabem disso. Organizações e pessoas ligadas ao poder sabem disso. Também sabem que o controle e manipulação da informação seja talvez uma das mais eficazes armas à disposição de governantes e de seus satélites que gravitam em torno da Corte, normalmente recheada de privilégios inacessíveis aos plebeus que pagam a conta. Trata-se, na verdade, de um monopólio.  E este monopólio foi quebrado.

 Existia, com toda certeza, um conjunto de travas morais que eram seguidos de maneira geral por boa parte das organizações dedicadas à indústria da informação. O que se constata atualmente é que estas bases, que deveriam servir como guia para boas práticas, há muito foram erodidas, sendo substituídas por agendas inconfessáveis, destinadas a atender tão somente aos interesses de grupos solidamente incrustados nas entranhas do poder e que mantinham feroz controle sobre o conteúdo distribuído. O advento das mídias sociais provou ser um desafio muito maior do que o antecipado. Em muitos casos, provocando a ruína de empresas centenárias, incapazes de fazer frente à realidade que estava tomando forma, varrendo do mapa aqueles incapazes de se readaptar com a rapidez necessária.

O que se encontra hoje, com mais frequência do que seria aceitável, são cenários dignos de ditaduras e regimes autoritários. Isto porque não se imaginava a profundidade do pensamento único na democracia brasileira, pelo menos não na extensão em que se manifestava. As mídias sociais, em muitos casos para o bem, mas também para o mal, é bom que fique claro isso, revelaram as vísceras de um sistema comprometido desde suas mais singelas raízes, mostrando a falência quase generalizada daquilo que se entende como o bom texto jornalístico.

Muito desta boa escola de jornalismo não existe mais. Seus princípios foram corroídos e suas bases morais foram erodidas pela ideologia. Antigamente buscava-se primeiro o texto, para apenas posteriormente indagar de sua autoria. Nos dias de hoje, identificar a fonte tornou-se indispensável, antes mesmo de se começar qualquer leitura.  O fato é que não é mais possível traçar uma linha perfeita entre o mero relato de fatos e a opinião autoral manifestada. Houve um notável abastardamento da produção jornalística, eivada de vícios de origem que apontam sobretudo para as preferencias muitas vezes não reveladas pelo próprio autor do texto, mas subliminarmente inseridas.

A consequência disso é a morte anunciada do formato até então dominante durante um período nem tão longínquo, mas que aos poucos está sendo substituído por estruturas vindas de uma nova geração de autores cujas características principais (nem tão profissionais assim, eventualmente) se revelam não necessariamente na elegância do texto, mas fundamentalmente determinadas por um perfil adequado ao meio ao qual está destinada. São formatos oriundos dos chamados influenciadores digitais, um fenômeno irreversível onde não está mais em questão ser crítico, contra ou a favor. É apenas um fato.

A discussão que precisa ser estimulada é aquela que separa o joio do trigo, pois o bom jornalismo é absolutamente essencial em qualquer sociedade aberta e não pode ser substituído de forma inconsequente por analistas de ocasião que tem como principal ativo a capacidade de atingir grandes contingentes de pessoas pela facilidade que as mídias digitais proporcionam a qualquer um que tenha interesse em emitir opiniões sobre qualquer tema.

O problema é que o acesso facilitado proporcionado pela rede mundial, ofereceu um terreno fértil para oportunistas espalharem textos muitas vezes repletos de falsidades e não apenas opiniões individuais, com potencial de causar enormes e irreversíveis danos em pessoas e organizações. Aliás, exatamente como oportunamente alertou poucos anos atrás o saudoso Umberto Eco. Ainda assim, o melhor filtro possível para separar o bom do mau texto continua sendo o próprio leitor. Somente ele tem a liberdade para dar a palavra final sobre o que quer ler ou deixar de ler.

E neste aspecto, no meio de uma floresta onde se torna difícil avaliar a qualidade do trabalho realizado surge a oportunidade dourada para jornalistas exercerem seu mister, pois somente bons profissionais tem as habilidades necessárias para produzir conteúdo capaz de se diferenciar daqueles que apenas e tão somente querem surfar em alguma onda momentânea.

Mesmo parecendo paradoxal, os acontecimentos que tem desafiado de forma dramática a credibilidade dos meios de comunicação nos dias de hoje são na verdade a maior oportunidade já surgida nos últimos 50 anos para a reinvenção do texto jornalístico, pois não passa um dia sequer sem que as mídias sociais e a internet sejam acusadas de acabar com o verdadeiro trabalho de reportagem ao dar plataforma para todos os tipos de informação, sejam estas falsas ou não, verificadas ou não. Pior ainda, em face da enorme facilidade de acesso, todos parecem assumir a condição de especialistas em todos os assuntos, supondo erroneamente que dispõem de um passe livre para manifestar qualquer pensamento sobre qualquer assunto a qualquer tempo.

As mídias interativas efetivamente abriram as portas para um mundo totalmente desconhecido, mas inteiramente conectado. Muitos recebem isso com entusiasmo. Outros, entendem que na verdade as portas do inferno foram escancaradas. Mas, assim é o ser humano, aquele mesmo que através de suas ações pode se tornar um herói, mas também pode se revelar um notório assassino. A diversidade está no livre arbítrio que abre as portas tanto para o céu, como também para o inferno. Para o bem ou para o mal esta é a realidade que veio para ficar, especialmente nas sociedades abertas. E o Brasil é uma sociedade aberta, felizmente, apesar das inúmeras tentativas por parte de partidos extremistas de esquerda, com explicita formação totalitária e revolucionária de intimidar de qualquer maneira aqueles que ousam expressar sua opinião, especialmente quando divergente da orientação dos líderes destas organizações.

O desejo secreto destes grupos sinistros é reproduzir os mesmos mecanismos totalitários exercidos, por exemplo, em países que estão na moda, como a China, onde o controle da informação pelo estado é praticamente absoluto. Isto para não mencionar os fregueses frequentes desta lista nefasta, como Cuba ou Coreia do Norte. Tivesse o PT ganhado as últimas eleições presidenciais, o Brasil estaria agora experimentando o mesmo modelo genocida com tempero venezuelano que está destruindo aquele pobre país. Afortunadamente, este projeto fracassou, esperamos que para sempre. Democracia, com todas as suas idiossincrasias, ainda permanece sendo o pior dos sistemas políticos, salvo todos os outros somados.

Diante deste quadro por vezes caótico, muitos se questionam se não seria o fim da profissão do jornalista? Definitivamente, não. A mudança drástica dos mecanismos  de comunicação de notícias e opiniões foi de tal forma radical que a perplexidade se instalou entre aqueles que queriam manter pessoas dentro de currais opinativos, numa espécie de ditadura natural das ideias. Isto mudou, e não há possibilidade de retorno. Ao contrário do que vaticinam alguns arautos do catastrofismo que se avizinha, esta mudança tecnológica exige que aqueles que queiram exercer a nobre profissão da crônica ou da reportagem se reinventem para reencontrar seus leitores. As pessoas estão mais sedentas do que nunca por bons textos.

Ao contrário do que ocorreu durante muitos anos, hoje é possível validar e verificar cada informação que é repassada nos meios de comunicação quase que imediatamente. Nada escapa ao escrutínio das redes. Todas as opiniões podem ser contraditadas, ou até mesmo vilipendiadas injustamente. Isto impõe um gigantesco desafio a qualquer um que se aventure na empreitada. A sobrevivência do bom trabalho jornalístico depende mais do que nunca da fidelidade de seus profissionais à verdade e à opinião abalizada. Ninguém é obrigado a concordar com tudo o que é escrito, assim como ninguém tem a capacidade de dominar tudo sobre todos os assuntos.

Este talvez seja o maior desafio da atualidade hiperconectada, ou seja, desenvolver o trabalho indispensável do jornalismo dentro de princípios que em muitos casos foram esquecidos pelos mais diversos motivos, sejam estes espúrios ou não. Ainda que pareça surpreendente afirmar, o futuro para um bom texto nunca foi tão promissor, ainda que assustadoramente desafiador. Que os novos tempos de ubiquidade da informação sirvam como estimulo para que os bons jornalistas deste pais sigam o melhor exemplo de profissionalismo no uso dos melhores critérios para a produção e veiculação da informação. Uma coisa é absolutamente definitiva: ninguém consegue enganar todos, durante todo tempo. Talvez nem mais por poucos momentos.

(Luiz Marcelo Berger é doutor em administração)

One Comment

  • Max Guimaraes disse:

    Berger expõe com clareza o atual PERÍODO DE CONVULSÃO pelo qual atravessa, principalmente no Brasil, o jornalismo político. Revela que bem ou mal as coisas estão mudando e é fato que toda MUDANÇA gera angústia, atritos e desconforto. O lado positivo é que a população resolveu pagar este preço por não mais suportar a hipocrisia dos meios de comunicação até então dominantes nas últimas décadas. Não somente na política, ao jornalismo também cabe o seguinte pensamento: NÃO BASTA UMA INFORMAÇÃO PARECER HONESTA, ELA PRECISA SER HONESTA, DE FATO!

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