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É a cultura, estúpido! – por Luiz Marcelo Berger

Corriam os anos noventa e o então candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Bill Clinton, tentava destronar o Presidente George H. W. Bush do seu posto na Casa Branca. Entre os slogans daquela mítica campanha capitaneada pelo estrategista politico James Carville, estava a agora famosa exclamação “- it’s the economy, stupid” (- é a economia, estúpido!). A estratégia foi vitoriosa e Clinton foi eleito Presidente dos Estados Unidos. O resto hoje é história.

Mais do que um emblema de marketing politico, a frase sintetiza uma fotografia cultural daquele momento histórico. Avance agora algumas décadas e encontramos hoje um cenário bastante distinto, não apenas nos Estados Unidos, mas particularmente no Brasil. Não que a economia tenha perdido sua importância, pelo contrário. O que surpreende é que passados mais de trinta anos da queda do muro de Berlim, existam ainda pregadores de foice e martelo que mantém intacta a ideologia política e econômica que vigorava na então cortina de ferro, arrebanhando hordas de incautos seduzidos pelo seu canto da morte.

O mais insólito é que embora haja fartura de fatos, estudos, documentos, evidências e números que comprovam de forma enfática o fracasso absoluto dos regimes estatistas-socialistas-comunistas, o apelo desta ideologia continua mais vivo do que nunca. Por que? Como isso é ainda possível? Qual explicação plausível diante da catástrofe venezuelana sendo testemunhada praticamente ao vivo e a cores todos os dias? Qual motivo leva milhões de pessoas a ignorarem fatos concretos e aceitarem farsas e mentiras comprovadas, chavões repetidos de forma contumaz pelos mesmos falsos profetas que levaram o país para a boca de um precipício jamais experimentado na sua história? Como é possível que pessoas com bom grau de instrução repitam palavras de ordem e venerem criminosos cuja folha corrida é recheada de atrocidades reveladas com riqueza de detalhes em processos judiciais?

A resposta para este paradoxo não se encontra no campo da racionalidade puramente econômica, onde fatos já seriam mais do que suficientes para encerrar qualquer discussão. Não, o problema é bem mais profundo e decorre de processo longo e gradual de destruição dos fundamentos morais que sustentam a sociedade, uma verdadeira lavagem cerebral executada minuciosamente ao longo de muitos anos.

Por décadas tem sido travada uma guerra psicológica com o objetivo de doutrinar mentes e corações e por consequência alterar drasticamente a percepção da realidade a partir de narrativas que reduzem todas as controvérsias a uma mera discussão de bar, baseadas em frases de efeito rasas, pueris e carentes de qualquer sustentação fática ou lógica, mas de imensa carga emocional.

Neste ataque frontal, a noção do certo e errado tem sido amplamente relativizada quando não erradicada, conforme o contexto que se queira atribuir, colocando pessoas umas contra as outras, catalogando-as em centenas de tribos, todas vítimas ressentidas e invejosas umas com as outras, como se o infortúnio de uns fosse obra deliberada de outros. Uma farsa maquiavélica pacientemente estimulada por todos os meios possíveis e imagináveis, sobretudo no sistema educacional, mídias e entretenimento.

A guerra pelo controle da psique das pessoas vem sendo há muito executada nestas frentes usando uma infinidade de imagens e frases de efeito, deliberadamente direcionadas para modificar os critérios morais que orientam a vida privada e pública da sociedade. Claro, o instrumento primordial utilizado para este fim tem sido a cultura, pois imagens impactantes e palavras de ordem tem como objetivo provocar reações emocionais na psique das pessoas.

Mudanças culturais podem determinar os rumos de um país, pois o ser humano é por definição um animal gregário, precisa estar em interação com outros seres humanos. A convivência social é uma característica inafastável da própria condição humana, sem a qual a pessoa tem dificuldades de desenvolver sua identidade social.

Modificar a cultura, portanto, é fundamental para um projeto de poder totalitário. O princípio de uma sociedade livre é constituído antes de tudo de uma idéia, de um arquétipo, sobre o qual estão sentadas todas as outras regras que conformam as relações humanas, não apenas a de caráter econômico. Ao se alterar os arquétipos, muda-se a forma de convivência das pessoas e, portanto, suas relações interpessoais.

Nas últimas décadas, a base fundamental que constitui a estrutura da sociedade cujos valores estão sentados em trocas voluntárias tem sido sistematicamente erodida por conceitos que dividem o mundo em coletivos: ricos e pobres, opressores e oprimidos, gays e heteros, negros e brancos, etc. Neste novo mundo estratificado, um pesadelo orwelliano, critérios raciais e sexuais tem desempenhado papel preponderante, como se fosse possível identificar o caráter de cada ser humano pela cor da pele ou pelo sexo. Uma aberração que tem recebido enorme apoio principalmente nos meios de comunicação de massa.

Por trás desta divisão, está em última instância um processo de desumanização na medida em que a identidade individual agora passa a ser definida apenas e tão somente pelo grupo ao qual pertence, subtraindo assim seus componentes  fundamentais, a alma humana e o espírito que a orienta, únicos e inerentes a cada homem e mulher na face da terra. De fato, este era o objetivo declarado da famigerada Escola de Frankfurt, de notória inspiração marxista.

A adoração messiânica cega aos emissários do estado e seus apóstolos estatólatras, verdadeiros cavaleiros do apocalipse, é a chave para a transformação da pessoa em um ponto perdido no meio de uma massa amorfa de seres que abdicaram de sua essência individual humana, na melhor descrição da obra-prima de Elias Canetti. Em última instância, um ser amebóide incapaz de qualquer reflexão mais profunda.

Para executar esta engenharia social é necessário controlar o estado e as leis, o que somente pode ser obtido através do domínio de suas instituições, criadas ironicamente para proteger os direitos fundamentais do ser humano, vida, liberdade, propriedade e busca pela  própria felicidade. Tomar as instituições por dentro, somente é possível se os valores fundamentais do ser humano são degradados a ponto de se tornarem inexistentes dentro do conjunto de regras que norteiam as relações, tanto privadas como públicas. Bem vindo ao mundo distópico de Antônio Gramsci.

A hegemonia tribalista é cristalizada assim pela destruição dos pilares fundamentais da civilização, notadamente a família, relativizando ou negando a importância dos laços que ligam pai e mãe na formação dos filhos. Na seita coletivista, a mãe de uma criança é estimulada a casar com o estado, transformando o pai em uma figura pária, coadjuvante, quando não indesejada, pois neste cenário surrealista tanto homem como mulher recebem intenso estimulo para viver apenas dentro do seu hedonismo inconsequente.

Assim, desintegrar a família é a porta de entrada para a ruptura do tecido social, sendo apenas mera questão de tempo o domínio da educação, da mídia, do entretenimento e de todas as demais instituições, particularmente aquelas diretamente relacionadas com a formação e aplicação das leis. Qualquer semelhança com a realidade vivida no país não é, portanto, mera coincidência, mas um projeto deliberado e intencional.

Qual seria, portanto, a relação, entre esta guerra cultural e a economia? É preciso entender que trocas voluntárias em ambiente de livre negociação e mínima intervenção somente podem ocorrer em sociedades onde a confiança seja a regra, na qual cada pessoa saiba que ela é o inicio, meio e fim de tudo o que acontece na sua vida.

Confiança é um valor anímico inerente a qualquer ato cooperativo. Nenhuma sociedade sadia consegue prosperar sem que fortes relações de confiança sejam estabelecidas, na qual o estado assume papel subsidiário, servindo apenas como árbitro de controvérsias entre entes privados, nada mais. Como é possível haver confiança se todos estão contra todos?

Nos últimos anos, a tribalização da lei, onde pessoas são legalmente diferenciadas umas das outras, criando regalias para seletos grupos em prejuízo da  maioria provocou o aumento drástico dos conflitos, uma vez que a confiança foi lentamente subtraída das relações em prol do estímulo ao litígio.

Reverter este quadro é imperioso e precisa começar pelo exemplo que deve vir de cima, pois somente assim a autoridade estatal será legitimada em atos e não apenas discursos. Reintroduzir critérios objetivos no sistema de ensino, baseado nas habilidades e capacidades pessoais de cada ser humano é fundamental para acabar com o tribalismo das cotas. Mais do que isso, enquanto a cultura do privilégio de castas obtido através de prejuízos difusos não for erradicada é improvável que o pais desenvolva um mercado atrativo, eficiente e competitivo para empreendedores, pois investidores de qualquer nacionalidade percebem rapidamente quando a intermediação e a burocracia remuneram muito mais que do que o risco, revelando que o estado existe apenas para sustentar cartéis, monopólios e grupos de burocratas privilegiados protegidos por leis feitas sob medida.

Este expediente nefasto tem extraído enorme riqueza da sociedade em beneficio de um seleto grupo parasita com controle e poder sobre a lei, curiosamente, um cenário descrito por Bastiat há bem mais de um século e mais recentemente por Ayn Rand. Dividir para conquistar, é o lema. Como nota positiva, os sinais, ainda que tímidos, tem sido promissores, mesmo que cercados de solavancos. Oremos que 2020 reserve boas surpresas nesta direção. Surpresas que gerem confiança, acima de tudo, pois é sempre prudente lembrar que o mundo não vai esperar pelo Brasil. Na verdade, nunca esperou.

bacharel em Direito, doutor em administração

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