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Depois da vida – por Carla Rojas Braga

Recentemente, assisti à série After Life, do ator e diretor Ricky Gervais.

A série tem a ridícula tradução de “Vocês vão ter que me engolir”, mas é excelente.

Um homem que acabou de perder a esposa pensa em suicídio constantemente e ao mesmo tempo resolve que, por causa de sua dor, não se importa mais em dizer tudo o que pensa, mesmo quando provoca a dor em outros.

Não vou dar um spoiler do filme, mas já adianto que ele acaba por se dar conta que precisa continuar vivendo e que a dor diminui quando consegue ser um homem doce novamente.

Além disso, há poucos dias soube da morte de duas esposas de dois amigos queridos e pensei que precisamos falar sobre o luto.

A perda de um ente querido é uma das experiências mais dolorosas.

Lidar com a morte de alguém que se ama não é tarefa fácil.

Entretanto, o luto é um processo pelo qual, infelizmente, todas as pessoas deverão passar a fim de amenizar o sofrimento gerado pela ausência do ser amado.

Mas felizmente ele tem começo, meio e fim.

Existem basicamente cinco fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, mas é difícil e errado simplesmente tentar enquadrar a pessoa em uma delas, pois às vezes ela pode passar por todas as fases ao mesmo tempo, ou simplesmente não passar por nenhuma.

Diversas reações emocionais são despertadas com a morte de alguém, tais como tristeza, ansiedade, culpa e raiva. Isso é muito comum. Principalmente o sentimento de culpa. Invariavelmente, nos perguntamos o que poderíamos ter feito para evitar aquela morte, ou para ter diminuído o sofrimento daquela pessoa, ou ainda, nos sentimentos culpados pelo que dissemos ou deixamos de dizer para quem amamos quando os perdemos.

A pessoa enlutada pode, também, num primeiro momento, querer se isolar do convívio social.

Podem, também, acontecer alterações físicas como taquicardia e fraqueza, já que o corpo fica sob stress.

Em função do grande sofrimento e angústia, então, todo mundo se pergunta quanto tempo esse processo vai durar.

Na verdade, não existe um tempo certo para superar a perda de alguém, isso depende de cada pessoa, do modo como ela enfrenta e aceita a situação.

O primeiro ano é o mais difícil, porque é nesse ano que ocorrem todos os primeiros aniversários e outras festas sem a pessoa por perto.

Vem, em seguida, a fase de adaptação, caracterizada por alternâncias imprevisíveis entre aceitação e emoções negativas.

Ouvir a voz, ver e sentir a presença, entretanto, podem representar formas de alucinações benignas, devaneios, sem significado patológico.

Os sintomas incluem ansiedade, disforia, raiva e depressão, associados a alterações fisiológicas: taquicardia, aumento da pressão arterial, da produção dos hormônios envolvidos no estresse, distúrbios de sono e deficiência imunológica.

Um processo de elaboração de luto é bem sucedido e finalizado quando a pessoa consegue superar a perda e seguir em frente.

Não é que ela vá esquecer, pois as lembranças e a ausência continuarão, mas a perda não vai mais ocupar um lugar de destaque na vida dela.

O problema ocorre quando essa fase natural se torna mais difícil que o habitual: o que os especialistas chamam de “luto complicado” ou luto patológico.

As complicações do luto estão associadas a distúrbios do sono, abuso de álcool, drogas, ideações suicidas, depressão da imunidade, doenças cardiovasculares e dificuldade para seguir tratamentos de outros problemas de saúde, como hipertensão ou diabetes.

A característica principal é a tristeza profunda e prolongada, acompanhada de pensamentos insistentes ou imagens da pessoa falecida, raiva, sentimento de culpa, descrédito e inadequação para aceitar a realidade. Enquanto alguns procuram evitar situações que lhes tragam a lembrança da perda, há os que se apeguem às roupas e objetos da pessoa que se foi.

Geralmente isso acontece com pessoas que perderam entes de maneira abrupta, como em acidentes, tragédias , casos de suicídio e na morte precoce de um filho. Nesses casos, todo pensamento e ato estão associados à perda, e a pessoa não consegue se desligar. Ela deixa de realizar as atividades costumeiras, como ir ao trabalho e ao supermercado, por exemplo.

Em contrapartida, há aqueles que agem como se nada tivesse acontecido e, alguns dias depois da morte, voltam a trabalhar e lotam a agenda de compromissos. Entretanto, indivíduos que agem assim também precisam de cuidados especiais, pois ocupam-se excessivamente para fugir do problema e a tristeza vai acabar implodindo a pessoa mais tarde.

Elaborar a perda de uma pessoa amada é um processo doloroso, longo e demorado e requer paciência de todos, tanto da pessoa enlutada quanto das que a cercam.

As pessoas deprimidas precisam de carinho, proteção e colo, mas o que mais ajuda nessas horas é poder conversar sobre os sentimentos, sobre a morte e suas circunstâncias e, principalmente,
sobre a pessoa que morreu.

Lembrar das coisas boas e ruins, poder recordar as gracinhas e chatices.

Além disso, ter uma crença religiosa e ou espiritual também é importante e reconfortante para os que sofrem.

A ajuda de um profissional da área da psicologia também é muito importante, quando necessária, para possibilitar um entendimento mais profundo, principalmente dos sentimentos de culpa e remorsos, tão comuns e angustiantes, aliviar a dor psíquica e para ajudar na reconstrução da vida e da felicidade do paciente na nova trajetória e nova configuração familiar com leveza no coração e na alma.

Nós somos feitos de memórias.

As nossas memórias alicerçam e povoam o caminho para o nosso futuro e dão colorido e propósito para o nosso presente.

Não esqueça das suas.

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