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Cpers negacionista tenta barrar retorno das aulas no RS – por Douglas Sandri

O debate sobre a volta às aulas ganhou novos ingredientes nesta semana. O Governo do RS publicou novo decreto nesta sexta-feira (23) autorizando a cogestão para a área da educação em regiões em bandeira preta no Modelo de Distanciamento Controlado. Na prática, autoriza as atividades em Educação Infantil e nos 1º e 2º anos do Ensino Fundamental. Já em nível federal, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que institui a educação como atividade essencial. A ideia dos autores da matéria, que ainda precisa passar pelo Senado antes de ir à sanção presidencial, é tornar mais difícil o fechamento das escolas em meio à pandemia. É um projeto louvável, que busca reduzir os estragos de um longo período sem aulas, tempo que cobrará altos custos para os estudantes, em especial os mais jovens.

Pena que uma entidade que diz representar uma parte importante da comunidade escolar feche os olhos para esse problema e se mostra insensível ao drama de alunos, pais e familiares. Falo do Centro dos Professores do Estado do RS (Cpers). Desde o final de fevereiro o estado tem as atividades presenciais nas escolas impedidas por uma liminar na Justiça. Porém, antes mesmo dessa proibição, o sindicato já havia firmado uma posição contrária às aulas e não abre mão. Aliás, desde o começo da pandemia, a entidade se manifesta nesse sentido — só adapta os argumentos em contrário. Entrincheirados e indispostos a reverem seus conceitos, o Cpers despreza os argumentos científicos e os melhores exemplos que vêm de outros países. Sim, nessa matéria, o sindicato dos professores é negacionista — um rótulo que a esquerda e os “especialistas” de plantão adoram colar em quem tem uma visão de mundo diferente.

Para o Cpers, não importa o fato, comprovado cientificamente, de que as crianças e adolescentes têm menos probabilidade de contrair a Covid-19, e quando pegam, normalmente o quadro de saúde é menos gravoso. Além do mais, o sindicato deveria estar ciente do que ocorre no ambiente escolar, em vez de estar fazendo militância divorciada da realidade. Se prestassem atenção ao mundo concreto, perceberiam que, em mais de um ano de pandemia, é possível fazer uma constatação óbvia: as escolas são mais seguras, tanto para alunos como professores e integrantes do corpo educacional, do que qualquer outra atividade, em qualquer outro ambiente. A prova desse dado objetivo é que, quando as escolas puderam receber atividades presenciais, não tivemos grandes relatos de casos de Covid-19. Os episódios de infecção são isolados, e mesmo assim é preciso investigar a procedência de cada um para se aferir a participação da escola nesse contexto.

O bom desempenho das escolas, a despeito do que o Cpers diz, se deve a rígidas medidas que incluem utilização de máscaras, distanciamento social, boa ventilação dos espaços e higienização. Bom, mas alguém pode objetar: “e no atual estágio da pandemia, com altas taxas de casos e UTIs lotadas? As escolas devem estar abertas mesmo assim?” Nesse caso, podemos traçar um paralelo com exemplos de fora, como é o caso da Espanha.

O país europeu tem mostrado que, com um controle e acompanhamento próximos, há grande potencial de se reduzir os riscos no ambiente escolar. Os espanhóis, que fecharam os colégios na primeira onda de Covid-19 e foram duramente criticados por isso, aprenderam a lição. Hoje, a nação ibérica figura entre as que menos perderam aulas dentre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mesmo com os casos em alta, as escolas não fecharam. E os índices de contágio dentro das instituições de ensino permaneceram baixos, significativamente menores do que a outras atividades. Nos momentos de aperto, os gestores têm agido com prudência. Essa característica faz com que a Espanha opte por não fechar tudo, e sim criar “bolhas” entre turmas. Quando um caso positivo é detectado, toda a sala de aula é colocada em quarentena e seus membros fazem testes de PCR.

É um bom exemplo de quando as análises técnicas se soma ao bom senso na tomada de decisões. Lamento profundamente que o Cpers, aqui no Rio Grande do Sul, se mantenha alheio ao melhor debate, às melhores soluções. Penso que eles deveriam ser os primeiros a defenderem a volta às aulas. Como parte fundamental da cadeia de ensino, tem o dever de defender os interesses da parte mais interessada dessa relação, os estudantes, aqueles que fazem suas vidas profissionais valerem a pena, terem uma razão de ser. E o melhor para eles é retornar às atividades presenciais, sem dúvidas.

Não podemos brincar com coisa séria, e nem fazer alarmes e discursos ideológicos como o sindicato dos professores faz. A entidade adora pintar um cenário catastrófico que se materializaria se o ensino presencial retornasse no Rio Grande do Sul. As evidências e a experiência, observada tanto no Brasil como no exterior, sugerem o contrário. A catástrofe sim, vai acontecer, mas se não abrirmos as escolas.

Os problemas já se avolumam hoje, e quanto mais tempo parados, piores serão os reflexos para o futuro das crianças e adolescentes. Isso é científico. Estamos privando as crianças da sua janela de aprendizagem, e impedindo que os alunos tenham acesso a todos os benefícios que acompanham as escolas: a convivência em grupo, o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e o bem-estar físico e mental que proporcionam, além da proteção social tão fundamental à infância e que estes ambientes oferecem.

Mas nada disso importa para o Cpers, que prefere fazer proselitismo e panfletagem ideológica, anticientífica, com argumentos vagos e insustentáveis. Tempos atrás, em uma audiência pública na Assembleia Legislativa, foi dito que deveria ser crime não seguir a ciência em tempos de pandemia. Essa fala foi endossada pelo Cpers, que destacou ela, inclusive, no relato do encontro feito em seu site oficial. Pois é. Na prática, quem não está seguindo o melhor dos estudos é o próprio sindicato.

Presidente do Instituto de Formação de Líderes (IFL) de Brasília. É assessor parlamentar na Câmara dos Deputados e graduado em Engenharia Elétrica.

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