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Coronavírus, o melhor e o pior do ser humano – por Diego Casagrande

O coronavírus, ou Covid-19, é a verdadeira linha de demarcação deste início de terceiro milênio.

Ele não vai dizimar a humanidade – por hora nada indica que vá – mas com o potencial de ceifar a vida de muita gente nos quatro cantos do planeta, mudará muita coisa em todos os lugares.

Erraram todos aqueles que diziam ser o 11 de setembro de 2001, o pior atentado terrorista da história, o fato principal a definir nossas ações e emoções nesta nova arrancada do ser humano, agora com mundo verdadeiramente globalizado, internet na palma da mão, tecnologia em patamares nunca antes sonhados e conexões até então impensáveis tornando-se realidade.

O coronavírus já está mudando tudo.

Neste momento em que escrevo, 1/3 do planeta está em lockdown, trancado em casa e aguardando as cenas dos próximos capítulos. Todos estão tensos. Muitos estão roendo as unhas de pânico de se contaminar. Para outros, o que gera desespero é a perda do emprego ou a incapacidade de produzir para o sustento. Em muitos casos, estas duas preocupações se complementam e viramos todos homens-bomba de emoções.

Antes de continuar, acompanhe comigo a linha do tempo do coronavírus no mundo:

– 12 de fevereiro: 50.000 casos

– 6 de março: 100.000 casos

– 18 de março: 200.000 casos

– 21 de março: 300.000 casos

– 24 de março: 400.000 casos

– 26 de março: 500.000 casos

– 28 de março: 600.000 casos

– 29 de março: 700.000 casos

Consultando agora o site da Johns Hopkins University, verifico que já são 704 mil casos confirmados mundo afora e 33.500 mortos. O site também publica o número de pessoas que se curaram: 148 mil. Um alento diante de tantas más notícias.

Alguns pontos importantes que infectologistas renomados já sabem sobre a doença: ela é nova, altamente contagiosa, tem tempo de incubação bem maior que a gripe comum e pode apresentar poucos sintomas ou até ser assintomática, permitindo que uma pessoa contamine muitas outras sem saber. Também não existe vacina e ainda não existe medicamento de eficácia comprovada, apenas a esperança com algumas drogas que vem sendo testadas em meio ao desespero. Nos casos graves, o indivíduo terá uma pneumonia e precisará de um respirador mecânico. E terá de torcer para que seu sistema imunológico não o deixe na mão.

Os médicos também já sabem que existem faixas de risco maior entre a população: pessoas com doenças pré-existentes tem chance bem maior de um agravamento do quadro de saúde e de ter a vida abreviada. No entanto, nas primeiras semanas nos EUA, quase 40% dos internados em hospitais tinham menos de 55 anos, conforme amplamente divulgado pela imprensa americana.

Este último grupo terá grandes chances de sobreviver, mas é aí que surge um problema adicional, muito sério, e que verdadeiramente preocupa os governos e profissionais que atuam para salvar vidas: o colapso dos sistemas de saúde.

Isso já foi verificado em Wuhan, na China, onde essa praga começou. Está sendo notado na Itália e nesta semana nos Estados Unidos, mais precisamente em Nova Iorque.

Como muita gente se contamina rapidamente, muitos acabam indo parar no hospital, tem de ser internados em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e precisam ser entubados (jargão médico que significa receber oxigênio através de respirador artificial).

Acontece que em dado momento, bem antes do que se esperaria, começam a faltar UTIs e respiradores para os pacientes. O tempo médio de internação é elevado e pode variar de 10 a 20 dias.

Muitos então morrerão pela falta de respiradores.

Notem que neste cenário, também começam a faltar suprimentos para os médicos e profissionais da saúde trabalharem para salvar os pacientes, e de outro lado para não se contaminarem.

Até ontem, 37 médicos já haviam morrido na Itália.

Ninguém ainda fez a contagem das baixas entre enfermeiros, auxiliares de enfermagem, profissionais de limpeza e todos aqueles que estão na linha de frente nos hospitais.

Outro ponto importante: aparentemente, o percentual do total de contaminados que vai precisar deste suporte em uma UTI é pequeno, mas em números absolutos é o suficiente para levar os sistemas de saúde a uma crise sem precedentes.

Na Itália já são mais de 10.700 mortos. Boa parte, por certo, poderia ter sido salva se a infraestrutura hospitalar não tivesse explodido.

Aqui nos Estados Unidos, de onde escrevo e que já é considerado o novo epicentro mundial da doença, o número de casos confirmados hoje chegou a 135 mil, com 2381 óbitos. E mesmo aqui, um país rico e com mais condições, todo mundo foi pego de calças curtas.

Se a doença se espalhar como foi na Itália e na Espanha, as autoridades não escondem: muitos perderão suas vidas.

Por estas e outras que o renomado médico imunologista e cientista Dr. Anthony Fauci, principal referência da Força Tarefa da Casa Branca contra a doença, não cansa de repetir que a melhor maneira de combater o vírus neste momento é reduzindo o contágio. “Precisamos ganhar tempo”, afirma ele. Tempo para preparar os sistemas de saúde. Tempo para produzirmos mais respiradores. Tempo para conhecermos melhor esse “inimigo invisível”. E a melhor maneira de reduzir o contágio é, por hora, fazendo distanciamento social, evitando contato com outras pessoas.

É duro, é difícil para todo mundo. Está sendo e será complicado. O ser humano é, com todos os seus potenciais defeitos, acima de tudo, comunitário, afetivo, gregário.

E o vírus está aí para nos testar a todos. Sem exceção.

Os governos do mundo todo estão buscando maneiras de preservar as populações do contágio e ao mesmo tempo impedir um eventual colapso de seus sistemas econômicos. A busca pelo equilíbrio de impedir o contágio e permitir que as pessoas coloquem comida na mesa está se mostrando verdadeiramente complexa.

É um quebra-cabeças danado.

Duvide de quem disser que tem a resposta definitiva.

Já sabemos que o coronavírus  vai, verdadeiramente, definir (ou redefinir) atitudes e comportamentos daqui para frente.

É ele que vai determinar ações individuais e coletivas, ações de pessoas e governos, o investimento em saúde e prevenção, o investimento cada vez maior na ciência, nas relações entre os países, na globalização.

Enfim, ele tem potencial para tornear as atitudes da humanidade de agora em diante.

Neste momento de crise, de incertezas, já é possível ter uma noção clara nas redes sociais, do melhor e do pior do ser humano.

Me corta o coração ver gente diminuindo o potencial destrutivo da doença, afirmando que “só morrem velhos e pessoas com problemas de saúde prévios”. Como se estivesse justificado que um diabético, hipertenso ou asmático fosse descartável. Como se tivéssemos que aceitar isso com o coração empedernido.

Não!

Comentários que me lembram a eugenia nazista, onde alguns indivíduos eram, por suas fraquezas e debilidades, “indignos de viver”.

Confesso que me chateia ver pessoas comparando o número de mortes do coronavírus com o número de baixas em acidentes de trânsito ou assassinatos. Estas baixas são cruéis e existe todo um esforço para que diminuam. É como se, diante do que é errado, devêssemos aceitar “tudo que é errado” com absoluta passividade.

Dois erros não fazem um acerto, já diz o sábio ditado popular.

Enfim, não sei qual o rumo tomaremos, mas definitivamente espero que não seja o de relativizar a vida humana.

Tratar nossos irmãos idosos e doentes, que nos dias de hoje com o avanço da ciência certamente teriam mais tempo para usufruir da vida, como se fossem números frios ou percentuais inertes, isso sim é de uma indignidade sem tamanho. Isso é o pior do ser humano.

Estamos todos no mesmo barco agora.

Venceremos juntos e sairemos juntos disso tudo.

Como sempre na história, tal qual um jogo de dados, uns sofrerão mais do que os outros. Isso é certo. Mas jamais podemos abrir mão de fazer o que for preciso para que todos saiam bem desta catástrofe humanitária do nosso tempo.

Finalizo com meu especial reconhecimento aos médicos, enfermeiros, profissionais da saúde que estão nesta linha de frente. Nesta guerra que está apenas começando, eles são a infantaria. Eles são a face notável do melhor do ser humano.

Mas não esqueçamos que cada um de nós é agora soldado e pode fazer a diferença.

Enfim, não sei qual mundo surgirá depois do coronavírus, mas não tenho dúvidas de que será um mundo diferente.

Espero que seja um mundo melhor.

Jornalista, Editor-Chefe

One Comment

  • Sueli de Castro Ferreira disse:

    Estou sozinha nesse isolamento, mas cercada de solidariedade. Moro num pequeno prédio de apartamentos e os moradores estão preocupados uns com os outros. Pessoas que eu nem tinha amizade me ofereceram sua solidariedade. Fantástico.
    Espero, Diego, que no final dessa pandemia o mundo seja melhor, menos materialista e mais solidário. A humanidade está precisando disso, que voltemos os olhos aos menos afortunados, deixemos nossa zona de conforto e vamos ao encontro daqueles que precisam da nossa ajuda.
    Obrigada a você, Diego, pela sua amizade virtual por todos nós, que tem sido, muitas vezes, um alento que nos mostra que não estamos sozinhos.
    Um forte abraço e se cuide.
    Sueli de Castro Ferreira – Itapecerica da Serra – Grande São Paulo

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