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Coronavírus, covid-19 e câncer: o que sabemos até o momento? – por Daniela Rosa, médica oncologista -PhD

Definições importantes

– Surto: aumento repentino do número de casos de uma doença em uma região específica (por exemplo, dengue em algumas bairros de algumas cidades);

– Epidemia: surto que ocorre em diversas regiões (vários bairros de um município; diversas cidades de um estado; várias regiões de um país);

– Pandemia: quando a epidemia afeta várias regiões do mundo, como a gripe suína em 2009 (gripe A; H1N1) e a infecção pelo HIV, é classificada como pandemia; atualmente, desde fevereiro de 2020, a infecção pelo coronavírus foi classificada como pandemia, por ocorrer em vários países dos 6 continentes (ver detalhes abaixo);

– Endemia: ocorrência de uma doença em nível constante em determinados locais (por exemplo, febre amarela e tuberculose).

O que é um coronavírus?

Os coronavírus são uma família de vírus que causam doença em humanos e outros animais. Nos humanos, vários coronavírus causam infecções respiratórias como a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) ou a síndrome respiratória aguda grave (SARS). Atualmente, estamos diante do mais recente coronavírus identificado, um beta-coronavírus do tipo RNA, que causa a infecção chamada de Coronavirus Disease 2019, ou COVID-19.

Na literatura médica, também pode-se encontrar a doença denominada de síndrome respiratória aguda do coronavírus 2, e o nome do vírus como SARS-CoV-2.

A figura abaixo mostra a estrutura do coronavírus responsável pela COVID-19:

COVID-19

Essa doença teve início na China, na província de Wuhan, em dezembro de 2019; mostrou tratar-se de uma infecção que contagia muito rapidamente e, mesmo que não seja tão grave quanto algumas outras infecções virais, pode ser fatal em pessoas com problemas pulmonares, com diminuição da imunidade e em idosos.

Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial de Saúde declarou a epidemia pelo COVID-19 como emergência de saúde pública internacional; em 4 de março de 2020, a infecção já estava presente em 77 países. A maioria dos casos ocorreu inicialmente na China ou em pessoas que haviam viajado para lá.

Em 25 de fevereiro de 2020 já havia 81.109 casos documentados laboratorialmente e, em 15 de março de 2020, já temos 156.327 casos confirmados no mundo.

Em janeiro de 2020 foi publicado um artigo científico com a descrição de 1099 pacientes infectados na China. As estatísticas foram as seguintes:

– Período de incubação da doença (quando ainda não há sintomas, mas a pessoa infectada já transmite o vírus): 4 dias (variando de 2 a 7 dias) – observação: outros estudos mostraram que o período de incubação costuma ser de 14 dias, que é o período que vem sendo adotado pelas autoridades de saúde;

– Idade mediana: 47 anos (0,9% abaixo de 15 anos);

– Sexo masculino: 58%;

– Sintomas mais comuns: febre (89%) e tosse (68%);

– Necessidade de internação e unidade de tratamento intensivo: 5%;

– Necessidade de ventilação mecânica (respirar com aparelhos): 2,3%;

– Tempo mediano de hospitalização: 12 dias (variando de 10 a 17 dias);

– Mortes: 1,4%.

Sintomas da COVID-19

O mais comum é ocorrer febre, cansaço e tosse seca; os sintomas geralmente são leves e iniciam gradualmente. Pode haver também dores no corpo, congestão nasal, nariz correndo, dor de garganta e diarreia. Na maioria dos casos (80%), há recuperação espontânea da pessoa infectada, sem necessidade de tratamento especial.

Quando houver febre, tosse e dificuldade de respirar, o paciente deve procurar atendimento hospitalar; os demais casos não devem ser tratados no hospital, mas sim, mantidos em casa até recuperação.

Como a COVID-19 se espalha

– ter contato de pessoa a pessoa: por gotículas do nariz (espirros, nariz correndo) e boca (tosse, respiração com gotículas);

– tocar em superfícies com as gotículas das pessoas infectadas (e depois colocar a mão na boca, nos olhos ou no nariz).

Recomenda-se ficar a pelo menos 1 metro de distância de quem tem a infecção.

Ainda não há evidências de que o vírus seja transmitido pelo ar (sem as gotículas), então, não é preciso que pessoas saudáveis usem máscaras.

Máscaras somente são recomendadas para os profissionais de saúde que atendem os pacientes infectados, para pessoas que cuidam desses pacientes em casa, para quem está com tosse e espirros ou para as pessoas que sabem ter a infecção reduzirem a transmissão para outras pessoas.

Quem tem risco de ter a infecção COVID-19 na forma mais grave?

Pessoas com hipertensão arterial sistêmica, diabete mélito, doença cardíaca, doença pulmonar, câncer e outras condições que causem diminuição da imunidade tem maior risco de desenvolver a forma mais grave da infecção.

Risco nos pacientes com câncer

Como a pandemia (epidemia amplamente disseminada) pelo coronavírus é uma doença nova e recente, todos estamos aprendendo a lidar com ela a medida em que surgem casos novos. A experiência de países como a China (epicentro da infecção) e a Itália (primeiro país europeu a ser acometido de forma muito intensa pela COVID-19) está sendo fundamental para entendermos como a doença ocorre e quais são os danos que ela causa.

Os pacientes com câncer em tratamento ativo com medicamentos que causam diminuição da imunidade parecem ter maior risco de infecção grave, embora o número de casos de infecções nesses pacientes seja pequeno.

Na análise publicada de 1099 casos de infecção na China (Gwan e colaboradores), 10 pacientes tinham câncer (0,9%) e, destes, apenas 3 tiveram a forma grave da doença.

Em outra análise de 1590 casos em 31 províncias chinesas (Liang e colaboradores), 18 pacientes tinham câncer (1%):

– câncer de pulmão foi o mais frequente (5 pacientes; 28%);

– de 16 casos com informações completas, 4 (25%) haviam recebido quimioterapia ou haviam sido submetidos a cirurgia no último mês antes da infecção; os outros 12 estavam em acompanhamento de rotina;

– comparados aos pacientes sem câncer, os que tinham câncer eram mais velhos (idade média de 63 anos x 48,7 anos nos pacientes sem câncer), tiveram maior frequência de tabagismo (22% x 7% nos pacientes sem câncer), mais falta de ar (dispneia; 47% x 23% nos pacientes sem câncer) e mais alterações na tomografia do tórax (94% x 71% nos pacientes sem câncer);

– pacientes com câncer tiveram maior risco de doença grave (39% x 8% dos pacientes sem câncer).

Dessa forma, pessoas em tratamento para câncer devem ter cuidado redobrado para não adquirir a infecção, evitando contato com pessoas com sintomas e com pessoas que tenham viajado para áreas com a epidemia e evitando viagens desnecessárias e locais com aglomerações de pessoas.

Como se proteger da infecção

– primeira e mais importante medida: LAVAR AS MÃOS frequentemente com água e sabão ou higienizar com álcool-gel – essas 2 medidas simples matam os vírus que estiverem em suas mãos;

– manter pelo menos 1 metro de distância de pessoas que estiverem tossindo e espirrando (podem haver partículas virais nas gotículas provenientes da tosse e do espirro de pessoas infectadas);

– evitar tocar nas mucosas dos olhos, do nariz e da boca (nossas mãos podem tocar em superfícies infectadas pelo vírus e levar as partículas virais para nossas mucosas; a partir daí, o vírus pode entrar no nosso organismo);

– seguir uma adequada higiene respiratória: ao tossir e/ou espirrar, cobrir sua boca e nariz com seu braço ou antebraço (e não com suas mãos); após usar lenços de papel para limpar as secreções do nariz e da boca, colocá-los imediatamente no lixo;

– ficar em casa se não estiver se sentindo bem, mesmo que os sintomas sejam leves, como dor de cabeça, febre baixa e nariz correndo (para não contaminar outras pessoas, caso você esteja com o vírus);

– evitar viajar para ou frequentar locais onde há casos de COVID-19;

– buscar informação em fontes confiáveis – não espalhar nem acreditar em notícias falsas (fake news).

Figura: lavar as mãos é a principal estratégia de prevenção da infecção pelo coronavírus.

Estratégia da Organização Mundial de Saúde para controlar a pandemia COVID-19:

Objetivos da estratégia:

– diminuir a velocidade de transmissão da COVID-19 até evitá-la, prevenindo surtos e retardando sua disseminação;

– fornecer cuidados adequados para todos os pacientes, especialmente os que tem infecção grave;

– minimizar o impacto da epidemia nos sistemas de saúde, nos serviços sociais e na atividade econômica.

Recomenda-se que todos os países se preparem para identificar e responder ao surgimento de casos de COVID-19 em diferentes cenários de saúde pública, com rápida implementação das medidas necessárias para reduzir a transmissão e o impacto público e social da infecção.

Cenários de transmissão da COVID-19:

As recomendações para cada cenário podem ser acessadas no link a seguir, e consistem basicamente em lavar as mãos, adequada higiene respiratória (como explicado acima) e distância social, para reduzir o risco de contágio: https://www.who.int/publications-detail/critical-preparedness-readiness-and-response-actions-for-covid-19

Países sem casos da infecção;
Países com 1 ou mais casos detectados (casos esporádicos);
Países com grupos de casos em determinadas localizações com ou sem exposição comum ao vírus;
Países com surtos de transmissão local (transmissão comunitária)

Achatando a curva de infecção

Muita gente tem acessado gráficos na internet com títulos “flattening the curve”, ou algo semelhante. Esses gráficos explicam porque é tão importante instituir medidas para reduzir a velocidade de transmissão da infecção pelo coronavírus.

O gráfico abaixo, adaptado do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, Center for Disease Control and Prevention), extraído do site https://news.umich.edu/pt-br/achatando-a-curva-do-covid-19-o-que-significa-e-como-voce-pode-ajudar/, mostra os cenários onde a infecção se propaga rapidamente (em azul), esgotando a capacidade dos serviços de saúde para tratar os doentes e aquele onde a o vírus se propaga mais lentamente (amarelo), dando tempo de alocar os recursos necessários para o adequado atendimento dos casos, principalmente dos graves.

A busca pelo cenário em amarelo visa reduzir o número de mortes pela COVID-19 e deve ser buscado por todos os cidadãos.

O Washigton Post publicou recentemente gráficos bem interessantes sobre o que ocorre quando se consegue achatar a curva de transmissão, que posem ser acessados no seguinte link: https://www.washingtonpost.com/graphics/2020/world/corona-simulator/

Para acessar o número de casos confirmados de COVID-19 em tempo real, acesse: https://experience.arcgis.com/experience/685d0ace521648f8a5beeeee1b9125cd

A figura abaixo mostra a situação em 15 de março de 2020: 152.428 casos confirmados com 5.720 mortes, em 141 países.

Referências

1.Guan W et al. Clinical Characteristics of Coronavirus Disease 2019 in China. N Engl J Med 2020; DOI: 10.1056/NEJMoa2002032.

2.Liang W et al. Cancer patients in SARS-CoV-2 infection: a nationwide analysis in China. Lancet Oncol 2020;21:335-7.

3.Chen N et al. Epidemiological and clinical characteristics of 99 cases of 2019 novel coronavirus pneumonia in Wuhan, China: a descriptive study. Lancet. 2020; (published online Jan 29.) https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30211-7.

4.Wang C et al. A novel coronavirus outbreak of global health concern. Lancet. 2020; (published online Jan 24.) https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30185-9.

5. Zhou P et al. A pneumonia outbreak associated with a new coronavirus of probable bat origin. Nature. 2020; (published online Feb 3.) DOI:10.1038/s41586-020-2012-7.

6. https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

7. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/index.html?CDC_AA_refVal=https%3A%2F%2Fwww.cdc.gov%2Fcoronavirus%2Findex.html

Daniela Dornelles Rosa, MD PhD
Médica Oncologista
Porto Alegre, RS

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