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As deliciosas bofetadas de Ricky Gervais na hipocrisia de Hollywood – por Diego Casagrande

Muitos atores, atrizes, diretores, produtores e seus ricos puxa-sacos ainda devem estar se perguntando: “Alguém anotou a placa do caminhão que passou por cima de nós?”.

Eles ficaram atordoados diante de tantos deboches no 77º Golden Globe Awards.

Foi como se um homem-bomba tivesse se explodido no salão do Beverly Hilton, em Los Angeles.

O atropelador se chama Ricky Gervais, o ator e humorista britânico que roubou a cena na premiação em que os jornalistas escolhem as melhores produções da temporada.

Encaixando uma piada politicamente incorreta atrás da outra, Gervais foi desmontando a plateia, falando desde a baixa estatura de Joe Pesci – comparado ao bebê Yoda – passando pela diferença de idade entre Leonardo de Caprio e a namorada de 22 anos, mas também botando o dedo na ferida de escândalos sexuais, da corrupção e das falsidades dos membros da corte do cinema.

Lembrou que a prestigiada atriz Felicity Huffman foi parar na cadeia (ela pagou um esquema para aumentar a nota da filha e garantir entrada na universidade).

Ironizou o fato de que no memorial dos atores e atrizes falecidos no ano passado e que seria apresentado não havia “diversidade suficiente”. “Eram mais pessoas brancas”, disse em meio a sorrisos, numa evidente crítica ao que parece ser uma obsessão da indústria do entretenimento. “Talvez no próximo ano. Vamos ver o que acontece”.

Que delícia ver o homem fazendo piadas politicamente incorretas, em alguns momentos toscas até, no ambiente mais hipócrita da atualidade: Hollywood.

Bonito também foi ver aquele filme falso do diretor Fernando Meirelles – apesar dos ótimos atores – sair de mãos abanando. “Dois Papas” tem a mais rebuscada e mentirosa narrativa dos últimos tempos no cinema, enganando o público com um “inspirado em fatos reais”. Diálogos que não chegam nem perto da realidade e a construção de personagens mais distante ainda. Nem mesmo o comunista Leonardo Boff, que foi interrogado por Joseph Ratzinger nos anos 80 pela sua Teologia da Libertação, chancelou o retrato da personalidade histriônica e autoritária que fizeram do alemão no filme.

Mas voltando a Ricky Gervais, ele ainda fez troça do assédio sexual de executivos do cinema e também citou o até então adorado pela turma Jeffrey Epstein (encontrado morto na prisão sob acusações sérias de pedofilia, exploração da prostituição e tráfico humano). E acabou sobrando também para a Igreja Católica quando citou, entre outros, “Dois Papas”. “É um ano bom para filmes pedófilos”, disse. Jonathan Pryce, que interpretou o Cardeal Bergoglio, não conteve o desconforto. Estava na fisionomia.

O humorista também lembrou que gigantes como Apple (e outras) têm um discurso sobre “dignidade” enquanto exploram pobres coitados em fábricas degradadas na China. E cutucou o oportunismo pouco sadio das estrelas do cinema. “Se o Estado Islâmico iniciar um serviço de streaming, vocês ligariam para seus agentes, não ligariam?” alfinetou.

Ao falar do filme “Cats”, citado por muitos como uma grande porcaria, chegou a usar expressões sexuais, digamos, constrangedoras para o evento. A rede NBC colocou bipes sobre determinados pontos da fala.

Dias antes do evento, alguns artistas pediram à organização para não ficar na primeira fila. Temiam ser alvo dos exocets de Gervais.

O Golden Globe 2020, só pelas caretas e risadas constrangidas da plateia que brada pela natureza mas não abre mão de seus poluentes jatinhos particulares, já valeu. Provavelmente não haverá nada parecido tão cedo.

Este foi o quinto e último ano em que o britânico apresentou a festa.

“Portanto, se você ganhar um prêmio hoje à noite, não o use como plataforma para fazer discurso político. Vocês não podem palestrar ao público sobre nada. Vocês não sabem nada sobre o mundo real. A maioria de vocês passou menos tempo na escola do que Greta Thunberg”, disse ele para a elite cinematográfica presente. Greta, a queridinha da Revista Time e do mainstream midiático mundial, ganhou fama protestando contra o aquecimento global enquanto matava aulas às sextas-feiras.

Apesar das surpresas e das caras feias de muitos, Gervais avisou no início: “Lembrem-se, são apenas piadas”.

Mas por trás de tantas ironias e verdades corrosivas, a lição: Ricky Gervais deixou sua majestade Hollywood nua. No meio da rua.

Jornalista, Editor-Chefe

One Comment

  • Selma Quintanilha disse:

    Excelente texto! Que bom que esse apresentador teve a coragem de expôr a fina flor da hipocrisia e do oportunismo. Adorei!

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