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A vertigem de Petra Costa – por Guilherme Macalossi

Festa nas hostes lulopetistas. O filme “Democracia em Vertigem”, que tem como tema o impeachment de Dilma Rousseff, concorrerá ao Oscar de melhor documentário.

Após o anúncio, figuras proeminentes da esquerda brasileira se apressaram em saudar a notícia como um grande acontecimento do cinema nacional. Curiosamente, aqueles que culpam até os EUA pela queda do PT, agora estão realizados com o prestígio conferido pelos brancos ricos e glamorosos de Hollywood, a Meca da cultura industrial norte-americana.

A obra de Petra Costa não é um relato da realidade, e sim a ilustração de uma narrativa política plantada por quem foi deposto do poder.

A própria diretora se admite como uma militante. E talvez essa seja a única verdade ao longo do filme todo. De modo que o roteiro aposta no vitimismo para retratar os petistas, que aparecem como alvo de uma imensa conspiração urdida pela radicalização da oposição. No processo de retalhar o que aconteceu, a diretora pinça o que lhe serve e joga todos os outros fatos no lixo. Acima de tudo, é uma obra de revisão histórica que serve também como peça de propaganda.

A viabilização de um processo de impeachment sempre é uma construção jurídica, política e social. Dilma havia fraudado o orçamento, o que corresponde a crime de responsabilidade fiscal. Isso, entretanto, jamais possibilitaria a cassação de seu mandato se ela tivesse base parlamentar e popularidade. Ocorre que ela não tinha nada disso. A unidade do governo dentro do Congresso era inexistente e a crise econômica sangrava o povo. Entre 2014 e 2016, o Produto Interno Bruto do Brasil encolheu 8,6%. A inflação e os juros galopavam, o desemprego estava em alta e não havia perspectiva.

O resultado foram milhões de pessoas nas ruas pedindo a queda do governo. Foram as maiores manifestações da história do país.

Dilma caiu não apenas por descumprir a lei com medidas temerárias que não passaram pelo crivo do Congresso e foram condenadas pelo Tribunal de Contas da União, mas também porque o efeito dessas ações destruiu a economia. Tudo isso é devidamente ignorado pelo documentário. Os milhões de brasileiros que se insurgiram contra o estado das coisas aparecem como uns poucos reacionários saudosistas da ditadura. Também não há detalhes sobre a natureza das pedaladas fiscais. Petra Costa se esquiva das questões mais espinhosas para se deter em alegorias retóricas e na adulteração do que considera inconveniente.

Vertigem é a falsa sensação que uma pessoa tem de que ela ou os objetos a sua volta se encontram em movimento quando não estão. O título do documentário não deixa de ser a confissão do estado mental de sua idealizadora, que viu na queda de um governo corrupto e incompetente o fim de uma democracia que continua existindo.

(Guilherme Macalossi é jornalista, radialista, apresentador do programa Confronto na Rádio Sonora FM, produtor de conteúdo na Gazeta do Povo e apresentador do programa Cruzando as Conversas, na RDC TV)

 

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