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A sociedade em redes e o futuro da democracia – por Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr.

As pessoas não têm mais tempo nem paciência para retóricas solenes que, dizendo muito, entregam pouco. A época dos discursos políticos eruditos acabou; a linguagem social, antes maleável ao charme do formalismo abstrato, se tornou vertical, simples e direta. E o motivo é categórico: a democracia contemporânea exige respostas claras, ações concretas e efetivos resultados práticos.

Nesse contexto pragmático, o advento das redes sociais, associadas aos smartphones, fulminaram as fontes estáticas, desinteressantes e unidirecionais da informação.

Temos, atualmente, uma teia difusa e, não raro, confusa de circulação informacional que, despida de instâncias de validação factual, conduzem a um violento entrechoque de versões contrapostas. As famigeradas “fake news” são um produto deste presente nervoso – e, às vezes, estupidamente dialético –  que, arrogante ao bom senso, falsifica fatos em favor de subjetivas teses de empreitada, menosprezando o próprio desenvolvimento científico.

O grave e preocupante é que, em um mundo com grave erosão da verdade, a insensatez pode acabar soando razoável, colocando por terra alguns conceitos básicos do mundo civilizado. Em seu excelente “The People vs. Democracy”, a inteligência ascendente do Professor Yascha Mounk apresenta importante estudo sobre as disfunções e possibilidades das democracias contemporâneas, realçando que as pessoas –  descrentes com as possibilidades do sistema atual – buscam amparo naquilo que chama de “strongman leader”.

O fenômeno automaticamente faz lembrar os presidentes Trump e Bolsonaro, com suas expressões cruas, informais e diretas.

O interessante é que, no Brasil, muitos críticos atuais do Planalto, ontem louvavam – com loas e confetes – inúmeras manifestações estúpidas ou defectivas dos ex-presidentes Lula e Dilma.

No entanto, antes de polarizações estéreis, a constatação do fato é feita para realçar que o aspecto determinante da linguagem política é a eficaz comunicação social, a partir de um enredo popular persuasivo à luz das sempre cambiantes circunstâncias da realidade.

Em um ambiente político tenso e ansioso por mudanças, as anacrônicas instituições de governo vivem em permanente vulnerabilidade. Sem cortinas, as redes sociais deram voz à indignação das massas, outorgando aos cidadãos uma forma orgânica, célere e exponencial de arregimentação coletiva. Assim, em questão de instantes, a insatisfação virtual pode se transformar em força nas ruas, guiando o povo aos palácios do poder.

Aqui chegando, o diagnóstico é certeiro: ou o sistema político aperfeiçoa urgentemente a responsividade governamental ou adentraremos em uma era de profunda instabilidade democrática, capitaneadas por uma cidadania ativa e pulsante que cansou de ser enganada por corruptos, corruptores e seus canalhas de ocasião.

(Sebastião Ventura Pereira da Paixão Jr. é advogado e especialista em Direito Constitucional)

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