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A ideológica irracionalidade racional – por Alex Pipkin

Eu tento – porque sou humano de carne, ossos e sentimentos – seguir os princípios iluministas da razão, da Ciência (com “C” maiúsculo) e do humanismo “racional”.
Qualquer jovem sabe que nossos sentimentos distorcem rotineiramente nossos pensamentos mais racionais. Nosso DNA contêm as sementes de nossos instintos primitivos, encharcados de sentimentos de medo, raiva, traição, vingança, tristeza… É da vida; nascemos num ambiente hostil e tivemos que “virar nos 30” para sobreviver e prosperar. Nada como o valor do passar do tempo, do acúmulo de conhecimentos e experiências e, avassaladoramente, do avanço da ciência. Por isso mesmo, acho que essa luta hercúlea de nós contra nós mesmos, entre a razão versus a emoção, é uma espécie de ilusão. Fatores de conformação social e de rejeição de características indesejados a partir dos outros, auxiliam-nos a formar e transmitir a nossa identidade social que, de alguma maneira, apazigua a batalha individual entre razão e emoção.

Factualmente buscamos alcançar aquilo que nos traz um maior “conforto” e/ou menos trabalho individual. Para alguns, a lei do menor esforço também é sinal de inteligência! Assim, nossa ignorância se torna mais racional, contaminada por nossas visões de mundo, vieses cognitivos e emoções… e por vezes, até nossas emoções tornam-se mais inteligentes e “treinadas” pelo fenômeno temporal.

Embora não pensemos e tomemos decisões individuais diárias com base numa planilha de custos e benefícios em nossas mãos, evidente que a maioria de nós avalia custos versus recompensas. Tomamos decisões individuais muito mais racionais sobre questões que impactam nossas próprias vidas.

Se, por exemplo, queremos adquirir um carro, certamente investiremos muito mais tempo e recursos na busca de informações do que, digamos, na compra de um singelo refrigerante.
Na verdade, o que nos fez evoluir civilizacional e materialmente, deixando para trás nossa vida nas cavernas, foi a dádiva da razão e da lógica da divisão do trabalho. A especialização, multiplicou conhecimentos, experiências, processos de tentativa e erro, experimentos e o respectivo avanço científico. Com a lógica científica, abandonamos certos argumentos criacionistas e mitológicos em nome da verdade do conhecimento comprovado, que racionalmente sujeita-se a falseamentos e ao surgimento de novas “verdades pragmáticas”.
Num mundo especializado, é evidente que não podemos agir e tomar decisões sobre nossas vidas sempre com base na razão pura. Grande parte de nossas escolhas estão armazenadas em nossos instintos e na memória acessível de experiências que resultaram em algo positivo e/ou negativo.

Embora a (i)lógica e o ranço insistente na existência do abstrato homem coletivo, somos mesmo o resultado de nossas escolhas individuais, sempre balanceadas pela razão e pelos sentimentos. Nesse mundo de colossal especialização, priorizamos coisas e fazemos escolhas que espelham tais prioridades. Humanamente, não dispomos de todas as informações disponíveis sobre o qual precisamos decidir, temos limitações em nível cognitivo e, cada vez mais, somos pressionados pelo tempo para fazer escolhas com seus custos, expectativas de resultados e riscos.
Em nossa vida particular, embora individualmente sejamos muito mais racionais, seguramente somos similarmente ignorantes racionais. Frente a gigantesca especialização, em determinadas situações desconhecemos fatos e a lógica racional do campo, e mesmo assim tomamos decisões que nos confortam. Somos cientes do desconhecimento e da percepção de que nossa chance de alterar um determinado resultado é pequeno. Assim, racionalmente, os custos para buscar a “verdade” são muito altos, especialmente em termos da busca e da aquisição de informações e conhecimentos.

Entretanto, quando nossas escolhas se referem a questão política, não há terreno mais estático em relação a (des)razão. Não resta qualquer brecha de dúvida de que somos politicamente irracionais. Tal qual o fanatismo religioso, acreditamos em dogmas e irrealidades factuais. Seguimos farsantes pregadores de crenças irracionais, e conscientemente abandonamos o conhecimento e a lógica, a fim de confirmar nossas expectativas em relação a essas visões de mundo. Na esfera política operamos quase que exclusivamente na irracionalidade racional!
Ou então como explicar que parte das pessoas vive ainda na validez do pensamento e da lógica coletivista de uma sociedade tribal, ou na Idade Média, acreditando na existência e na correção da bruxaria?! Por que as pessoas mantêm crenças sistematicamente tendenciosas, com baixa informação relativa à verdade dos fatos, e mesmo assim acreditam em histórias da carochinha…?
Pois é, na política, os indivíduos desviam das premissas e das expectativas racionais. São irracionais racionais, pois ponderam os benefícios prazerosos de se desviarem da racionalidade em relação aos custos materiais esperados desse ilusionismo. Não estão mesmo nem aí para a verdade e o sentido lógico de suas opções. Mesmo sabendo da irracionalidade factual, priorizam o pertencimento e o acolhimento tribal e sua razão de fé para viver e compartilhar desejos e vontades irreais.

Estou sendo eu irracional? Lógico, que não! Em que lugar o socialismo foi tentado e não resultou num rotundo e catastrófico fracasso em todas essas experiências – sangrentas?! Claro que a razão comprova sua irracionalidade; ponto final! Mas o que menos se percebe é o arrefecimento de tal pensamento mágico! Mais ainda, sua maior popularidade encontra-se justamente numa classe de pessoas mais educadas e instruídas, certamente porque os “especialistas” e intelectuais querem garantir espaços, privilégios e notoriedade por uma participação palaciana ativa.
O veneno da irracionalidade política é muito pior do que qualquer vírus. Não há vacina iminente para matá-lo. As pessoas buscam trivialmente transformar pseudo-verdades em fatos, a fim de confirmarem infinitamente aquilo em que acreditam piamente.

As batalhas digitais nas redes sociais são claros sintomas dessa absurda e desarrazoada falta de lógica! Tribos inimigas se digladiam por seus pontos de vistas e achismos irracionais, alimentando a prevalência de emoções burras frente a verdade racional dos fatos. Tudo e todos que vão de encontro as suas certezas absolutas, completamente desprovidas de lógica em sua grande maioria, é usado como mais lenha para a fogueira dos ilusionismos transformados em razão, “ciência” e – falsos – moralismos.

Como em tudo há um lado positivo; esses espaços virtuais servem de refúgio inteligente – em alguns casos! – a quase totalidade da (des)notícia enviesada e parcial da grande mídia, política e comercialmente interessada, e penso eu, contribuem para ampliar o universo de brasileiros em seu envolvimento com a política nacional. Claro que eles são “carregados” pelas briguentas marés ideológicas, acirrando a nefasta e extrema polarização nacional.

Nesse país do faz de conta, está cada vez mais difícil acreditar na força das iluminadoras ideias e certezas da razão, da ciência e do humanismo “racional”. Enquanto que em nossas vidas diárias somos muito mais pragmáticos e racionais, fazendo escolhas e ponderando riscos e benefícios de diferentes alternativas de ação, na política, não arredamos o pé do fanatismo, e nos recusamos a nos envolver com o lógica racional das trocas, acreditando num suposto mundo moral superior.

Somos moralistas, guiados por intuições sobre pureza e autoridade, e acreditamos em crenças sagradas a fim de expressar nossa identidade.
Para mudar esse cenário nacional desolador, a transformação deveria começar pelo indivíduo, por um pensar mais reflexivo e efetivamente racional, via uma melhor educação (não doutrinação!) e por meio de maiores experiências e oportunidades de vida.

Tristemente, acho que essa mudança – se possível – vai ficar para mais tarde: tempos de crise potencializaram a (i)lógica das diversas e sectárias tribos, de seus dogmas paroquiais e de suas pseudo-verdades!

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