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A Heineken e a ideologia anticapitalista por trás do “Dia Mundial Sem Carne” – por Douglas Sandri

A página da Heineken no Brasil resolveu fazer um post, no último sábado (20), em apoio ao “Dia Mundial Sem Carne”. A campanha é uma iniciativa criada pela ONG americana “Farm”, promovida desde 1985. Na superfície, os responsáveis pelo marketing da cervejaria quiseram fazer uma alusão à cor característica da marca (o verde), com a lembrança de que a bebida contém apenas água, malte e lúpulo. Portanto, sem proteína animal.

Porém, em uma análise mais detalhada, fica evidente que o posicionamento que a Heineken adotou é construído sob medida para agradar a ambientalistas e veganos. Pois estas duas ideologias nada mais fazem do que se aproveitar da publicidade e dos ambientes de discussão para monopolizar as suas pautas, passando por cima de todo o resto.

Com mensagens cheias de “sinalização de virtude”, os ativistas e propagadores desse modo de vida não se furtam de condenar os demais padrões de produção e consumo ao esquecimento, à ilegalidade ou à imoralidade. É uma mentalidade revolucionária que atropela todo um caldo de cultura, tradições e subsistência que nos possibilitaram chegar até aqui, enquanto sociedade.

Sou de uma região que tem na produção de proteína, como suíno e aves, a principal fonte de sustento de milhares de famílias. Há algumas gerações faz parte da nossa cultura e do nosso desenvolvimento a criação de animais para a alimentação da nossa gente. Temos um povo que valoriza esses traços em seu dia a dia! Porém, não é a primeira vez que marcas ofendem essa cultura, ao se ajoelharem para ativistas que idealizam um “mundo melhor” enquanto pisam em costumes, gostos e valores de uma comunidade.

Só para citar um exemplo local: em 2019, uma empresa de chocolates do Vale do Taquari, localizado na região central do RS, disse que não participaria mais da Suinofest — a maior festa gastronômica do estado. Por que ela fez isso? Para não desagradar o público vegano, que inundou as redes sociais dos patrocinadores. O detalhe é que a empresa está localizada em Encantado, um município que tem a criação, o abate e processamento da carne suína uma das bases de sua economia.

No caso da Heineken, é um escárnio para um país exportador de proteínas uma propaganda como esta, louvando o “Dia Mundial Sem Carne”. Tanto é que o post no Instagram foi tomado por críticas à postura da cervejaria. A marca ainda tentou contornar as críticas em um novo post, justificando que respeita todos os gostos. Mas não deu muito certo!

Um churrasco bem servido, com uma carne bem preparada, faz parte do imaginário coletivo de muita gente, mesmo quem por vezes só consegue comer carne uma vez por semana. Este comportamento antilógico de dizer que as pessoas não devem comer carne não deveria ser incentivado, principalmente quando por trás há um movimento ideológico anticapitalista para colocar goela abaixo mais uma de suas pautas.

Comer carne faz bem e quem abre mão disso deve procurar formas — muitas vezes caras e inacessíveis — de suprir suas necessidades proteicas. Não podemos esquecer que o consumo de proteína é um dos principais indicadores da qualidade de alimentação e de desenvolvimento de uma nação. Países mais desenvolvidos são aqueles em que sua população tem mais acesso à carne. Dizer para uma comunidade que ela só deve consumir produtos que não tenham origem animal, além de interferir em seus gostos pessoais, pode impor um custo que não cabe em seu orçamento.

A ideologia que promove esse tipo de defesa busca uma imposição cultural por meio da propaganda e do ativismo. Porém, não encontra vazão no cidadão comum, um ser com conhecimentos acumulados por gerações.

No meu caso, a Heineken era uma das minhas cervejas favoritas para tomar, eventualmente. Eu não sou adepto da “cultura do cancelamento”, mas me abstenho de consumir produtos cujo posicionamento de marca vão contra os meus valores e a cultura do que nos trouxe até aqui.

Espero que a cervejaria reveja seu posicionamento e se desculpe com seus milhões de consumidores pelo equívoco de sua equipe de comunicação. Até lá, sei que muitos irão aderir ao #churrascosemheineken.

Engenheiro eletricista graduado na Universidade Federal do RS e assessor parlamentar na Câmara dos Deputados

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